terça-feira, 27 de junho de 2017

O CONTRÁRIO DE AZUL


De certa “notícia” e respectivo “rodapé” televisivo que enunciava o «sangue comunista» de um político português, o mais que se pode dizer é que se trata da questão sanguínea de uma Testemunha da Ignorância. É bem verdade que a história não se repete – é uma impossibilidade, teórica e de facto; mas, como escreveu o historiador britânico Eric Hobsbawm, se destituirmos a história do seu sentido pedagógico, isto é, se considerarmos que a história nada nos ensina, é provável que soframos de algum desajustamento psíquico. Todavia, escreveu o mesmo historiador, «infelizmente, se alguma coisa a experiência histórica ensinou aos historiadores é que, aparentemente, com ela, nunca seja quem for aprende seja o que for. Mas temos o dever de continuar a tentar».

Jorge Muchagato, aqui.

VENTRÍCULO

Por onde hei-de continuar? Qual o caminho? Deverei continuar?
O galo canta a desoras, o cão está cego e surdo, o clima é macrobiótico, as costas ressentem-se e suo, e suo, e suo. Ressoam respirações antigas
                       vindas de um tempo que julgava extinto
no fundo do peito. A poesia já teve melhores dias, alguém que lhe decrete a morte. Steiner decretou a morte da tragédia, Enzensberger decretou a morte da literatura, ambos decretaram a morte do que mantêm vivo por respiração boca a boca, cuidados intensivos, urgências. Poesia geriátrica.
Não ter vida para lá disto. Só a música não morreu ainda.
Ligada à máquina, presa à vida por tubos, a música ainda pulsa.
Na reunião do partido discutem-se terras contaminadas, pessoas ao abandono, a miséria humana ilustrada pelo som rangente do soalho. Quantas imagens não terão já passado neste monitor? E a cada dia que passa torna-se mais evidente que nada se passa, que tudo passa, que são menos os minutos que temos pela frente.
Meço o pulso, conto batimentos, palpitações, arritmias, paragens, entre sístole e diástole esvaziam-se os pulsos.

"É FÁCIL TORCER O NARIZ DIANTE DO CADÁVER"

Quem escreve e emite juízos como se o mundo pertencesse apenas aos vivos, é um provinciano da História. E são sinal de tacanhez, tanto o seguidismo hipócrita do novo como o apego cego ao velho.

Ulla Hahn

O VERÃO DE ULLA HAHN


ESTE VERÃO

Este Verão ensina-me
a amar as minhas cicatrizes
a enfeitar-me com marcas de estrangulamento no pescoço

Este Verão ensina-me
a fechar à chave a amargura e fico
bem roliça e anafada pareço bem tratada

Este Verão ensina-me
a gritar o bel canto

Este Verão ensina-me
que a solidão descansa
e cresce numa mão

Este Verão ensina-me
a não confundir um corpo disponível
com o desejo de felicidade

Este Verão ensina-me
a ser para cada pedra um espelho de água

Este Verão ensina-me
a amar grandes bolas de sabão e pequenas
antes de rebentarem

Este Verão ensina-me
que tudo sem nós
por si continua

Este Verão ensina-me
um rosto gelado feliz

Este Verão ensina-me
tenho que ser eu a bater no tambor
quando quiser dançar

Este Verão ensina-me
a ser sem felicidade sem tristeza por uns
segundos aliada de Deus

Este Verão ensina-me
a acordar de manhã. Grata. Sozinha

Este Verão ensina-me
que a folha do limoeiro só deita cheiro
quando a desfazemos entre os dedos.


Ulla Hahn (n. 30 de Abril de 1946, Kirchhundem, Alemanha), in A Sede Entre os Limites, trad. João Barrento, Relógio D'Água, 1992, pp. 109-111.

segunda-feira, 26 de junho de 2017

NÃO TEM EXPLICAÇÃO


A infelicidade deste homem não é um caso isolado. Se fosse, as desculpas estariam aceites. Descuidos, lapsos linguae, afirmações infelizes esporádicas, todos têm. Mas Pedrito Coelho, sem prejuízo para Beatrix Potter, é useiro e vezeiro nestes momentos de triste memória.


Agora vem com esta de algumas vítimas da tragédia em Pedrógão Grande terem posto termo à vida, em desespero. Pela primeira vez sinto pena desta personagem. Há, sem dúvida, algo naquela cabeça que não vai bem. Para mais no pior momento do governo de António Costa, este lunático atrai sobre si as atenções deste modo suicidário.

Pode ter sido mal informado, pode ter sido induzido em erro, mas por que carga de água vem falar de putativos suicídios neste momento de luto? Este homem não tem explicação


Adenda: leiam-se as contas aqui feitas: No quadriénio 2007-2010, suicidaram-se em média, por ano, em Portugal continental, 983 pessoas. No seguinte, 2011-2014, em que Passos Coelho foi primeiro-ministro, esse número subiu para 1031 mortes. O número médio de suicídios por ano no mandato de Passos foi de mais 48 em relação à média dos quatro anos anteriores. Tudo somado, 192 mortes. Terá Rui Ramos estes números em sua posse?

PORTUGAL LOCAL É SENSACIONAL*


José Pacheco Pereira é um homem fascinante. Alia ao semblante de filósofo grego um pragmatismo deveras contemporâneo, tornando assim possível e coerente manter-se num partido cuja governação lhe inspirou as mais acintosas prosas. Não é por acaso que nos gloriosos tempos de Passos & Portas muitos acabaram por atribuir a JPP a mais hábil das oposições, a qual trouxe pelos cabelos certas figurinhas ridículas do PPD/PSD. Aí o temos, mais uma vez, ao lado de uma autarca modelo, presumo, segundo padrões que só a elaborada teoria política do autor do weblog Abrupto poderá explicar. À frente da Câmara Municipal de Rio Maior desde 2009, the woman in red conseguiu governar a três velocidades: parado, paradinho, paradão. Não é para mim um mistério, que naquela terra nasci e daquela terra parti, assistir ali à consagração da inoperância. Mais difícil de entender é a simpatia de Pacheco Pereira por tais atributos. Ao tentar compreendê-lo, ocorreu-me um caso hipotético explanado numa crónica do Público datada de 2012.

«Vejamos um caso hipotético e compósito de um político tornado gestor. Começou por baixo, por um aparelho partidário local cujo controlo assegurou, primeiro pessoalmente, depois através de homens de sua confiança pessoal. Durante toda a sua vida política nunca deixará de manter um controlo rigoroso sobre a sua zona de influência original, colocando lá homens de mão, que mais tarde emprega, distribuindo benesses e lugares sempre em primeira mão para o aparelho onde se iniciou e cresceu. Perder o controlo dessa base original é um grande risco, porque é aí que as pessoas melhor o conhecem, numa altura em que os seus primeiros passos de carreira ainda eram crus e pouco sofisticados e deixaram rastro. 
Iniciou-se a receber "avenças" dos empresários locais que conheceu no processo de obter financiamentos para a actividade partidária. Começa a entrar ou a fazer uma rede de "amigos", a que garante "facilidades" junto do poder central e local, primeiro em coisas simples e baratas e depois vai fazendo o upgrade para negócios mais sérios. Quase toda a sua economia pessoal é feita à margem do fisco e da lei, mas isso há uns anos atrás não era problema nenhum, porque o controlo fiscal dos rendimentos era uma ficção e hoje também não é por que há offshores . Se havia algum escândalo público, a explicação clássica era de que "ganhou na bolsa", e se esse escândalo implicasse problemas com a justiça, o que era raríssimo, pagavam-se de imediato os impostos em falta e esperava-se que a máquina emperrasse nas prescrições ou numa tecnicalidade, como quase sempre acontecia. 
Nesta altura, o nosso político hipotético já dá uma grande atenção à comunicação social e através de fugas de informações, que favorecem uma carreira jornalística, ou através de favores, presentes, ou mesmo falsas avenças ou empregos para familiares dos jornalistas no novo universo empresarial em construção, já tem um círculo de jornalistas no seu bolso. Nenhum, insisto, nenhum dos que fazem esta carreira hipotética o consegue fazer sem relações privilegiadas com a comunicação social, umas vezes pessoais, dominantes no passado, hoje através de agências de comunicação pagas a peso de ouro. Esse ouro é pago por nós através de encomendas de serviços "de comunicação" por uma autarquia ou um ministério "amigo", assegurados, como tudo, pelo acesso ao poder político. Não existe hoje nenhuma destas microrredes de poder que não esteja ligada à comunicação social e que não dê importância decisiva a esse factor. No fundo, são políticos modernos, antes sabiam bem do poder do telefone e dos almoços de negócios, antes de ter medo das escutas, hoje exploram a fundo o spin e as redes sociais. 
Se for esperto, e muitos são mesmo muito espertos, sai a tempo da política e dedica-se "exclusivamente" aos negócios. Os seus negócios têm uma característica comum - fazem-se todos na "área de negócios politizados", todos dependem do acesso ao poder político e da decisão política, seja através de informação privilegiada, seja através de facilidades e escolhas de favor. Mas também por isso fica sempre com um pé, e um grande pé, dentro da política. Emprega nas suas empresas os seus companheiros de partido, e a sua família, cria laços sólidos no Estado e nas autarquias, recomendou e obteve a colocação de muitas pessoas que lhe são fiéis, ajuda a obter créditos e tratar de problemas com o fisco, ameaça quando é preciso e aparece quando é preciso. Nalguns casos institucionaliza a sua microrrede ou em associações e lobbies , ou, sempre deste retrato hipotético e compósito, entra numa maçonaria e usa-a para novas relações e novos recrutamentos em áreas sensíveis de decisão. Nos exemplos mais modernos recruta mesmo nos blogues alguns jovens lobos sedentos de notoriedade, poder e influência e que precisam de patrocinato, e a quem "enreda" para que não lhe venham a criar problemas no futuro. O que vemos hoje in the making é uma nova geração, preparada e escolhida pela anterior, de políticos deste tipo, uns na primeira divisão, mas a maioria na segunda divisão, onde também se ganha muito dinheiro com muito mais discrição


O nosso caso hipotético está longe de ser uma realidade, é apenas hipótese académica surgida na cabeça de um bom professor. Pacheco Pereira sabe como é, sabe como se faz, e é por isso que pensa por hipóteses, e é por isso que, por hipótese, devemos sempre interrogar-nos onde pretenderá ele chegar quando entre o que prega e o que faz achega-se ao poder local como o óleo à aguarrás.


*Ao cuidado do Malomil.

domingo, 25 de junho de 2017

BANDA SONORA ESSENCIAL #11


Nick Drake ocupa um lugar especial na galeria dos desafortunados. Nascido em Rangum, a maior cidade de Mianmar, por ser aí que seu pai trabalhava como engenheiro, chegou a Inglaterra com poucos anos de vida. Muitos, se tivermos em conta quão curta foi a sua. Rapaz bonito, inteligente, voz doce, bom gosto, tinha tudo para dar certo. Não deu. Atacado pela depressão, acabou por sucumbir com apenas 26 anos. Nasceu a 19 de Junho de 1948 e suicidou-se no dia 25 de Novembro de 1974. Parecem nada, 26 anos de vida. Foram os suficientes para que Nick Drake deixasse de herança três álbuns magistrais. Five Leaves Left anunciou-o em 1969, fazendo transparecer em letras simples, mas autênticas como poucos julgariam, uma mente desassossegada: «Please stop my world from raining through my head». O tom era melancólico, geralmente folk, enveredando por ambientes jazzy e bluesy coadjuvados pela guitarra de Richard Thompson, dos Fairport Convention, mas arriscando amiúde o dramatismo de orquestrações sofisticadas. Bryter Layter, de 1970, confirmou-o enquanto extraordinário compositor a quem poucos prestavam atenção. O tom divertido do primeiro tema, assim como a auto-ironia ensaiada em Poor Boy (com um fabuloso solo de piano por Chris McGregor), podem tornar-se enganosos. O desamparo paira sobre estes temas. Alguns instrumentais parecem hoje confirmar a escassez de palavras para uma dor que a leitura de Camus e dos poetas franceses não compensou. Lê-se no libreto que acompanha Fruit Tree, a integral de Nick Drake, que a sensibilidade deste tornou-se um escudo na relação com os outros. Alheado do mundo, procurou isolar-se. Nele tudo indica angústia e desespero, um desespero resistente ao outro. Pink Moon (1972), o mais despojado dos seus três discos, é talvez onde melhor se testemunha a desintegração de um ser com uma voz angelical atrás da qual se escondiam demónios inconcebíveis: «Take a look you may see me on the ground / For I am the parasite of this town». Sabemos hoje que a depressão é uma dor muda. Nick Drake deu-lhe voz, fê-la cantar. Estranho é que nos apazigúe ouvi-lo, tanto quanto nos comove. As suas canções são a expressão de uma tristeza e de uma dor que reivindica a nossa cumplicidade, estabelecendo entre o intérprete e os ouvintes pontes apenas concebíveis no domínio da arte. Em vida, tais pontes falham. Em vida, a tristeza permanecerá invariavelmente isolada numa das margens. A mais obscura. Ninguém a convidará para dançar



sábado, 24 de junho de 2017

«And you're ready now / For the harvest breed»


À CONVERSA COM STEINER

Ao retomar a tese sobre A Morte da Tragédia num ensaio intitulado «”A Tragédia”, Reconsiderada», George Steiner insiste numa noção de tragédia enquanto «ponto de encontro entre o metafísico e o poético». Subjaz a esta tese a ideia de que à tragédia é inerente uma relação entre o divino e o humano anterior à própria noção de Deus, ou seja, antes de se ter posto a questionar Deus o homem sentiu-se por ele abandonado. Como se Deus fosse um dado da razão, um dado claro e evidente da razão, porventura inato, uma espécie de estigma na consciência humana, o ADN dos desprotegidos, dos desamparados, dos desgraçados (a humanidade inteira). Não estará esta ideia viciada por um olhar histórico algo deslumbrado com tempos que somos incapazes de reconstituir sem apelar à imaginação? Terá mesmo havido nesse tempo da “tragédia absoluta” um sentimento de Deus diferente daquele que hoje nos governa? 

A morte de Deus instaurada pela modernidade reduziu a ideia de Deus, no sentido platónico de ideia, a um conceito. Deus passou a ser, como diria Ruy Belo, uma palavra que nos permite dar o nome de sagradas ou divinas a certas coisas. Uma mera palavra já não é uma ideia em sentido platónico, já não é o ser ao qual se chega pela iluminada prática da mente. Uma mera palavra é, de facto, outra coisa. É questionável que na cultura clássica tenha havido um sentimento de Deus, digamos, total, isto é, próximo ao sofrimento e à dor do desamparo. Chegam-nos desse tempo ecos ateístas quase totalmente rasurados pela historiografia oficial. E também podemos questionar até que ponto muitas das tragédias que hoje conhecemos e continuamos a admirar — da Antígona ao Prometeu Agrilhoado — não foram estratégias incipientes de questionar a subjugação dos homens ao abstraccionismo dos deuses. 

Enquanto representações de forças limite, e não podemos pensá-los de outra forma, os deuses da tragédia grega não provocam no homem algo de muito diferente daquilo que depois de Deus ter morrido o homem se tem encarregado de provocar a si mesmo: dor e sofrimento. Steiner afirma que o horror da história depois de 1914 é evidente. Mas já o era antes. Como pensar o Império Romano senão enquadrando-o num cenário de horror e de sofrimento? E a Idade Média, com suas altas fogueiras e pestes e perseguições e missões evangelizadoras? Não são também de horror os ecos que nos chegam dos rituais praticados por civilizações ameríndias praticamente extintas? O horror é o tom por excelência de um mundo colonizado, do comércio de escravos, da conquista das Américas. É o próprio Steiner quem num outro ensaio sintetiza muito bem a nossa história, ao afirmar que «os homens são primatas assassinos». 

Mas estes primatas assassinos, por alguma razão ainda inexplicável, escrevem poemas, arrancam tragédias da sua experiência do horror, concebem obras assombrosas que nos espantam como outrora, presumo, um fenómeno natural tão simples como uma lua cheia terá espantado os nossos antepassados. Talvez a tragédia tenha morrido, como morreu a poesia. Talvez estejamos a viver um longo e lento funeral da humanidade tal como a julgávamos conhecer. Ou talvez estes sejam tempos de alerta, tempos em que se torna claro e evidente, isso sim, que pouco sabemos ainda acerca de nós próprios, conquanto saibamos, e essa certeza ninguém nos tira, que somos primatas assassinos. Quanto a Deus, morto que nem a tragédia ou a poesia, pode por mim repousar lá de onde veio, na cabeça dos homens, desde que repouse na de cada um sem que cada um pretenda impor-se aos outros. 

sexta-feira, 23 de junho de 2017

NAS NOSSAS ESTRADAS

(...)

Entre 2005 e 2015 morreram nas nossas estradas 6.694 pessoas, mais do dobro do número de vítimas do ataque às Twin Towers. Durante o dia de amanhã, pela estatística, deverão acontecer pelo menos 87 acidentes, dos quais resultarão pelo menos 112 feridos e pelo menos um morto. Não é decretado luto nacional, não são exigidas cabeças de ministros, não há pronunciamento de comentadores, não há notícias de abertura de telejornais nem pedidos de inquérito

(...)


Xilre, aqui.

quinta-feira, 22 de junho de 2017

BARRIGA CHEIA

Os especialistas portugueses amam problemas estruturais e adoram fazer comparações com realidades externas, nomeadamente quando têm à mão todo o tipo de números e de estatísticas. Tomemos de exemplo os hábitos de consumo de cultura. Não entendo como pode ser possível falar de hábitos de consumo de cultura sem abordar um problema específico associado ao consumo, seja este de que tipo for. Esse problema é o da tendência portuguesa para fazer do salário mínimo nacional um salário médio. Que esperar dos hábitos de consumo de cultura dos portugueses quando se lhes oferece um salário mínimo de €557? 

Imaginem-se  a terem de pagar casa ou renda, água, gás, electricidade, imaginem-se com um filho para criar, a terem de comprar roupa e sapatos para se apresentarem decentes no trabalho, produtos de higiene básica, medicamentos, dentista, alimentação. Imaginem-se a terem que fazer uma vida básica, normal, decente com €557 por mês. Talvez não seja preciso imaginarem, talvez seja essa a vossa realidade. Que lugar nas vossas prioridades ocupam ou ocupariam livros, cinema, teatro, música, dança, afins? Não seriam relegados rapidamente para o plano dos luxos? E se há coisa que um salário mínimo português nos ensina é que a vida não está para luxos. 

quarta-feira, 21 de junho de 2017

EPIFANIAS #23

23

   Aquilo não é dançar. Desce até àquelas pessoas, jovem rapaz, e mostra-lhes como se dança. Ele esfola-se, sério e ágil, para dançar ante a multidão. Não há música para ele. Começa a dançar lá em baixo no anfiteatro com um lento e flexível movimento dos membros, passando de movimento para movimento, na graça total da juventude e da distância, até parecer um corpo giratório, uma aranha a rodar no meio do espaço, uma estrela. Desejo gritar-lhe palavras de louvor, gritar arrogantemente sobre as cabeças da multidão ‘Vejam! Vejam!’ . . . . . A sua forma de dançar não é como a das rameiras, não é como a dança das filhas de Herodias. Emerge do meio das pessoas, súbita e jovem e masculina, e mergulha de novo na terra em trémulos soluços para morrer triunfalmente.

James Joyce, in Shorter Writings.


Versão de HMBF

QUANDO OS BETOS SÃO O MENOS MAU



O luto terminou, dê-se passagem à caravana circense:
1. repórter da Antena 1 avança em directo para a RTP a notícia da queda de um avião, eventualmente, baseando-se nos testemunhos de uma velhota capaz de ver através de fumo denso, supostamente,
2. jornalista da TVI anuncia um alerta de frio em Portugal com base numa suposta notícia na primeira página de um jornal, supostamente, que, vista mais de perto, era anúncio da próxima temporada de uma série fantástica, alegadamente,
3. as redes sociais andam excitadíssimas com uma bombeira de Pampilhosa da Serra, a qual teve o azar de juntar à fotogenia a prática de uma nobre actividade, possivelmente,
4. Marcelo quer mais leis, Judite quer demissões, o padre Júlio quer mais padres…

As consequências de andar a chafurdar diariamente neste lamaçal noticioso são imprevisíveis, sendo certo, contudo, que o melhor que podemos esperar de uma sociedade assim fica plasmado no discurso da betinha que teve acesso às matérias de um exame de português, por via de uma cunha junto dos comunas do sindicato dos professores. Vai sair “Alberto Cairo”. Se não sair, eu não tive nada “a ver” com isto.

MAÇÃ, MELANCIA

A partir de Tsai Ming-liang

A última vez que me senti amado tinha escrito na testa: vou abandonar-te.
A minha cabeça assumia a forma de uma maçã, o cérebro eram minhocas.
O cérebro eram larvas sôfregas, eu andava como uma maçã a ser devorada, caída da árvore da sabedoria, maçã envenenada de paixão.
Tinha uma placa pendurada ao pescoço, era um judeu num campo de concentração, a última vez que me senti amado foi quando disse: adeus.
Ninguém me amou realmente, ninguém que enclausure saberá verdadeiramente amar, e eu tinha sirenes de sinalização a gritarem: deixem-me passar, deixem-me passar.
Ia a caminho das urgências, fui impedido, não me tratei. Agora sinto-me doente, há muito que me sinto doente, desde esse dia que me sinto doente de fadiga, um cansaço tão pesado como a perspectiva de ir trabalhar enquanto se toma o café da manhã. 
A minha cabeça agora é uma melancia, só água e pevides. Tenho a cabeça feita em água em pevides. Fosse possível, comeria a minha própria cabeça.  

terça-feira, 20 de junho de 2017

A PERGUNTA

Por que é que nunca se ouve falar de incêndios no Inverno?


Adenda: um Micróbio de 2005: aqui.

TRISTE CONCLUSÃO



(...)
De um lado o poder, do outro o saber. Afastados por milhões de hectares queimados, centenas de vítimas e milhões de euros consumidos. Quase incomunicáveis, apesar da cordialidade. Com o poder a mostrar quão insensível é aos apelos do conhecimento.
(…)
Há um problema de fundo com a prevenção. Ela impede os negócios do combate, um pasto fértil que se renova ano após ano. Numa lógica neoliberal o Estado deve ceder o passo aos negócios, ao Mercado, e deve reservar-se  meras funções de coordenação e de regulação. Para que tudo funcione bem deve abster-se de adoptar políticas intervencionistas deixando às empresas a intervenção reparadora e disponibilizando os fundos públicos - pagos com o dinheiro dos contribuintes - de que elas se alimentam. 
Quando o Mercado entender que retirará mais benefício da prevenção do que do combate, a politica pública mudará e o cluster dos incêndios mudará de orientação mantendo no essencial os mesmos protagonistas.

(…)


Que a citação não iniba a leitura integral do texto, assim como de outros acerca do mesmo assunto: aqui. O sublinhado é meu. A imagem é do Pedro Vieira. Excelente, como sempre.

#98


   Não é a primeira vez que Dan Auerbach se aventura a solo. Já em 2009 havia feito uma pausa dos The Black Keys, publicando então o álbum Keep It Hid. O merecido sucesso de El Camino (2011), muito por culpa de uma canção orelhuda intitulada Lonely Boy, gerou espectativas que o álbum seguinte da banda dividida com Patrick Carney não gorou. 
   Os temas a solo enveredam por texturas menos arreigadas ao rock, mesmo quando, ao contrário do que por vezes parece, o rock dos The Black Keys se desvia da tradição e adopta ritmos e nuances melódicas próximas tanto da pop como da soul. Waiting on a Song (2017) é uma belíssima recolha de composições pautadas por uma saudável atitude retro, recuperando métodos de produção que o levaram a rodear-se de músicos experimentadíssimos. 
   Impressiona, logo à partida, a paleta de géneros, com tons provenientes tanto da country music como da folk rock, passando por essa coisa desconforme a que se deu o nome de R&B, com arranjos sofisticados lembrando, a espaços, alguma da melhor soul music produzida na década de 1970. Em termos comparativos, talvez desde o Beck de Odelay (1996) que não ouvia um álbum tão ecuménico (Cherrybomb é o tema que há muito falta a Beck). 
 Mas impressiona também, apesar das inúmeras evocações, a capacidade de Dan Auerbach oferecer ao todo uma coerência que não se reduz apenas às suas particularidades vocais. A boa disposição exibida na maioria dos temas é uma resposta inteligente ao ar dos tempos, sobretudo quando pisca um olho irónico ao mestre nobelizado na mais groovy das canções deste ano: «Guess I'll stay on desolation row / Go get stoned and hang around». 
   É ouvi-lo:



UMA ROSA DE PAUL CELAN


QUIMICAMENTE

Silêncio, fundido como ouro, em
mãos
carbonizadas.

Grande, cinzenta,
forma-irmã
próxima como tudo o que se perdeu:

Todos os nomes, todos aqueles
nomes queimados
juntamente. Tanta
cinza por abençoar. Tanta
terra ganha
sobre
os leves, tão leves
anéis
da alma.

Grande. Cinzenta. Sem
escórias.

Tu, outrora.
Tu com a flor
pálida, mordida.
Tu na torrente de vinho.

(Não é verdade que também a nós
nos despediu este relógio?
Bom,
bom, como a tua palavra passando por aqui morreu.)

Silêncio, fundido como ouro, em
mãos carbonizadas,
carbonizadas.
Dedos, finos como fumo. Como coroas, coroas de ar
ao redor — —

Grande. Cinzenta. Sem
rasto.
Ré-
gia.


Paul Celan (n. 23 de Novembro de 1920, Czernowitz, Bucovina, Roménia - m. 20 de Abril de 1970, Paris), in Sete Rosas Mais Tarde, selecção, tradução e introdução de João Barrento e Y. K. Centeno, Edições Cotovia. 2.ª edição, Abril de 1996,  pp. 107-109.

DRONES



Sucedem-se as notícias de aviões sujeitos a manobras para evitar colisões com drones. Dispensam-se consultas ao professor Bambo para se adivinhar que, a breve trecho, os incidentes ascenderão à categoria de acidentes. Depois as televisões farão directos, os jornais dedicar-se-ão a emitir opiniões, o povo chorará as suas vítimas inocentes. Puta que pariu a merda dos drones. Não há quem meta açaimes nesses bichos? Não há quem responsabilize os "dronos"? 

segunda-feira, 19 de junho de 2017

A CULPA


…a culpa, a culpa, de quem é a culpa, eu quero culpados, exijo culpados, exijo para os culpados a mesma pena das vítimas, quero novas vítimas, quem fez, quem foi, quem não fez, o quê, quem, como, quando, eu sei, eu sabia, eu já tinha dito, eu previ, não me quiseram dar ouvidos, agora olha, aí têm, casa roubada trancas na porta, floresta queimada, lixo no chão, lixo, lixo, lixo, opinião pública, a culpa, o ordenamento, opinião pública, andaram a construir à parva, não há ordenamento do território, a nossa floresta é um caos, medidas, queremos medidas, queremos leis, mais leis, decretos, queremos sobretudo muita burocracia, muitas leis que ninguém cumprirá, tenho pinhais lá para a terra dos meus pais que nem sei onde ficam, nem sei o que tenho, tenho coisas, se calhar queimadas, se calhar as coisas arderam, se calhar não tenho nada, os bombeiros, eu sabia, quando é para festas, onde andam os bombeiros, os aviões, onde anda a protecção civil, a ministra é uma incompetente, isto é tudo negócio, as madeiras, os aviões, às vezes até são os bombeiros que põem os fogos, a ministra não sabe prevenir incêndios nem trovoadas secas nem fúrias, o primeiro-ministro nem sequer foi eleito primeiro-ministro, o presidente da república é só abraços, e que tudo foi feito, bem feito, perguntem aos mortos, culpados, se calhar, se tivessem ficado nos rios, dentro de água, como aquela família num tanque, se não se tivessem metido à estrada, a culpa foi da GNR, a GNR é que os atirou para a estrada da morte, que inferno, este inferno, ai jesus, meu deus, que inferno, a culpa é do tempo, a culpa é das condições adversas, sim, das condições adversas, esta adversidade de sermos como somos, desleixados, desinteressados, esquecidos, depois de amanhã já ninguém se lembrará do ordenamento, da paisagem, que bela paisagem, deixa-me tirar uma fotografia para partilhar no Instagram, ai ter aqui uma casa, ai, não se pode construir, a gente constrói e paga a multa, agora não posso mexer naquilo que é meu, lá para a terra dos meus pais, eu sei lá as coisas que eles para lá tinham, são eles os culpados, os culpados são os outros, a culpa é dos outros, dos outros, dos outros, a culpa…

EPIFANIAS #22

22

                                                 [Dublin: na Biblioteca Nacional]
Skeffington — Fiquei triste ao ouvir da morte do
         seu irmão. . . .lamento não o termos
         sabido a tempo. . . . .de irmos ao
         funeral. . . . .
Joyce — Ó, ele era muito novo. . . .um rapaz. . . .
Skeffington — Ainda assim. . . . .dói. . . .

James Joyce, in Shorter Writings.

Versão de HMBF.

PERDI UM LEITOR


São muitas as pessoas com as quais nos vamos cruzando ao longo da vida, mas poucas as que nos marcam por razões tantas vezes incompreensíveis. Nem elas nem nós saberemos dessas marcas, por serem como que invisíveis e imperscrutáveis. Tantas são as pessoas com quem nos cruzamos ao longo da vida, pessoas anónimas, pessoas de quem não sabemos mais do que um nome, quando sabemos, uma característica, quando as têm especiais, peculiares. Damos por elas quando nos faltam, quando desaparecem do nosso alcance, quando deixamos de as ver. Perguntamo-nos que será feito desta pessoa, deste homem, daquela mulher, que tantas vezes apareciam e deixaram de se ver? Questionamo-nos por que terão desaparecido, por onde andarão, estarão doentes, terão emigrado, zangaram-se com o nosso perfil?
Hoje, ao folhear um jornal local, dei com uma dessas pessoas. Não conheci este homem senão naquela formalidade do trabalho que obriga a distâncias relativas. Lembro-me dele desde um dos meus primeiros dias de trabalho numa livraria, por me ter encomendado um livro do Bruce Chatwin e assim ter ajudado o fustigado livreiro a ganhar o dia. Com o passar dos meses, dos anos, lá ia aparecendo de quando em vez, metendo conversa sobre colecções como A Biblioteca de Babel, da Editorial Presença, ou a Miniatura, da Livros do Brasil, a que dedicava atenção de coleccionador. Sugeri-lhe imensos livros, alguns deles objecto de uma troca de impressões que me parecia sempre benfazeja. Muito discreto, consegui ficar a saber-lhe de um weblog de culto, uma espécie de arquivo, como o próprio escreveu, «em homenagem à minha própria vida de leitor». Mil e Um Livros, aqui. A determinada altura, foi uma honra sabê-lo seguidor da Antologia do Esquecimento. Ainda é, presumo que continue a ser. Pelo menos enquanto a memória da sua passagem perdurar por aqui. Reencontrei-o hoje na página de um jornal, a página onde se coleccionam rostos, passagens, partidas. 

Perdi um leitor. Não de palavras inúteis como estas, mas um leitor a quem sugerir livros, bons livros, aqueles livros de que gostamos e sugerimos na esperança de que alguém possa encontrar neles o que nós vislumbrámos. Foi um desses leitores que eu perdi.

EPIFANIAS #21

21

Duas carpideiras empurram-se através da multidão. A rapariga, com uma mão a puxar a saia da mulher, corre à frente. Tem a cara de um peixe, sem cor e de olhar oblíquo; a mulher tem um rosto pequeno e anguloso, o rosto de um vendedor. A rapariga, com a boca distorcida, olha para a mulher tentando perceber se é o momento certo para chorar; a mulher, ajustando um gorro liso, apressa-se em direcção à capela mortuária.

James Joyce, in Shorter Writings.


Versão de HMBF.

PAISAGEM

domingo, 18 de junho de 2017

PESO

Um peso, toneladas de peso sobre as costas, um fardo mulher, um fardo homem.
Querias ter braços para deslocar o peso dos ombros, faltam-te braços, falta-te músculo.
O peso pesa cada vez mais, enterra-te.
Não sabes, não entendes, não percebes por que razão o peso cresce, por que motivo cresce sobre os teus ombros, curvando-te as costas. Ficas marreco.
Marreco de amor, és um fardo. Liberta os outros de ti.

És um peso.

BANDA SONORA ESSENCIAL #10


   O gosto pela música brasileira há-de ter vindo dos discos que rodavam lá por casa, de Roberto Carlos a Rita Lee, de Djavan a Ney Matogrosso, muito provavelmente por culpa de bandas sonoras para telenovelas e afins. Já na adolescência, trouxeram-me às mãos, porém, um álbum intitulado Meus Caros Amigos (1976). Chico Buarque acabou por ser a porta aberta para uma outra música brasileira, a que me transportaria posteriormente às obras de Tom Jobim e João Gilberto.
   Retrato em Preto e Branco (2005) recupera, em edição de luxo, as primeiras gravações do autor de A Banda, sobretudo aquelas que serviram para afirmar Chico Buarque como compositor, poeta e intérprete. Estamos a falar de temas vindos a lume na década de 1960, singles como Pedro Pedreiro. São canções para festivais, quando os festivais eram um veículo de divulgação imprescindível, sambas encomendados para musicais, temas que virão a ser popularizados nas vozes de Caetano ou Gilberto Gil. É a bossa nova de Com açúcar, com afeto a tomar forma com letras eivadas de preocupações sociais, incursões por ritmos latinos como o bolero (escute-se Funeral de um lavrador) sem abrir mão do samba.
  A música de Chico Buarque tem um humor pacificador, uma espécie de alegria descontente, isto é, uma festividade que é em si mesma forma de resistência aos dissabores da vida. Nos momentos mais melancólicos, como em Carolina, o ritmo bossa embala-nos dos olhos tristes da protagonista para um espaço de contentamento. A mensagem é positiva, apesar de Carolina não ter dado por ela. Damos nós. Ouvir Chico ajuda-nos a guardar a dor. Em dias de tristeza induzida pela realidade pouco nos restará além deste consolo. O intérprete sorri ao pronunciar as palavras, embalado pelos ritmos que lhe dão um colorido tropical: samba, chorinho, bolero, bossa nova. 
  Tomemos de exemplo a nostalgia convocada no tema que oferece título à colectânea, como poderíamos fazer com Umas e outras ou Benvinda. São canções onde o abandono e a tristeza se resolvem com uma noção simples da tolice que é entregar à melancolia o precioso tempo de uma vida. A melancolia só servirá para coleccionar sonetos. Não estará também a poesia no caminhar, na paz e no conforto da lira que distrai?



EPIFANIAS #20

20

   Estão todos a dormir. Vou subir agora . . . . . Ele está deitado na minha cama, onde ontem à noite descansei: cobriram-no com um lençol a fecharam-lhe os olhos com moedas. . . . Pobre companheirinho! Rimos juntos amiúde – ele furou o seu corpo muito levianamente. . . . Lamento muito que tenha morrido. Não posso rezar por ele como os outros rezam . . . . . . Pobre companheirinho! Tudo o mais é tão incerto!



James Joyce, in Shorter Writings.

Versão de HMBF.

LUTO EM CHAMAS


1. Acordar assim, com a cabeça redemoinhando imagens e notícias. Um parque de merendas coberto de lixo, entulho espalhado pelas matas, matagais que são acendalhas a céu aberto. Trovoada, calor, vento, a tempestade perfeita. A mãe Natureza reivindicará o atentado, o nosso desleixo será seu cúmplice. 



2. Demorou quatro linhas até que o número aumentasse de 39 para 43. Contam-se os mortos. 

3. Os portugueses das caixas de comentários eximem-se de responsabilidades insultando a ministra da Administração Interna. Chamam-lhe incompetente. Os portugueses das caixas de comentários são gente perfeita, inteligente, competente, são nobre povo. Dizem que este é um governo de assassinos. Exigem cabeças sem demoras, querem culpados, pretendem o gozo público da expiação. Estes portugueses medievos também passeiam em dias de folga, não largam lixo apenas nas caixas de comentários. Ontem, num simples passeio pelo Bacalhôa Buddha Eden, deu para perceber o civismo das nossas gentes no lixo que se ia encontrando abandonado pelas bermas. 




4. Na televisão contam-se 57 mortos e 59 feridos. O cenário é difícil de imaginar. A origem criminosa está afastada, pelo que não vale a pena especular sobre negócio das madeiras, pirómanos e outros maníacos que a raiva e a fúria dos incautos gostava de atirar às chamas. 

5. O tema dos próximos dias será o ordenamento florestal. De quando em vez, estes temas vêm à baila. Depois ficam na penumbra. Temos neste momento 57 razões para dar definitivamente mais voz a quem se preocupa com estas matérias. 


6. A contagem continua. Não tenho memória de uma tragédia destas no meu país. A ideia dos corpos carbonizados, presos entre chamas, confere-lhe um horror impronunciável. Leio no Jardim de Luz: «É tão frágil o que nos sustém».

sábado, 17 de junho de 2017

TEIA SOCIAL

Para o R.A.


Há quem passe a vida feliz, ou passe pela vida com um sorriso. Pelo menos é o que transparece. Diariamente, reiteradamente, repetidamente, a monotonia do sorriso, da alegria, da felicidade. Uma fotografia num restaurante, feliz. Uma fotografia numa rua, feliz. Uma fotografia numa praia, feliz. As redes sociais estão repletas de pessoas felizes, continuamente felizes. Ninguém estranha, ninguém se questiona sobre a repetitiva felicidade desta gente. Mas se por um momento mostrares infelicidade, tristeza, melancolia, toda a gente estranhará. Se em vez da fotografia feliz partilhares um pensamento infeliz, um sentimento melancólico, uma emoção triste, toda a gente estranhará. As pessoas estranham a comunhão da tristeza, convivem mal com a partilha da tristeza, mas aceitam sem questionar a alegria repetitiva, monótona, constante, enfadonha, fastidiosa como se fosse natural, como se fosse verdadeira, como se fosse autêntica. Como se a felicidade não merecesse ser questionada. 

EPIFANIAS #19

19

                                         [Dublin: na casa de
                                         Glengariff Parade: tarde]
Mrs Joyce — (enrubescida, tremendo, surge à
        porta da sala de estar)… Jim!
Joyce — (ao piano)… Sim?
Mrs Joyce — Percebe alguma coisa do
       corpo? … Que deverei fazer? … Está
       qualquer coisa a sair do
       buraco no estômago do pequeno George…
       Alguma vez ouviu algo sobre isto?
Joyce — (surpreso)… Não sei….
Mrs Joyce — Deverei mandá-lo ao médico? O que
       pensa?
Joyce — Não sei…… Que buraco?
Mrs Joyce — (impaciente)… O buraco que todos temos
       ….. aqui (aponta).
Joyce – (levanta-se)

James Joyce, in Shorter Writings.

Versão de HMBF.

NOVELA DE XADREZ

A história de Stefan Zweig (n. 1881 – m. 1942) é conhecida, embora nunca seja pleonástico relembrar alguns pormenores que acabaram por condicionar a obra publicada. Nascido no seio de uma abastada família vienense de origem judaica, estudou nas melhores escolas. Os primeiros poemas apareceram publicados quando tinha apenas dezasseis anos de idade. Estudou Filosofia e Ciências Literárias, tendo vindo a afirmar-se como um dos maiores intelectuais do seu tempo. A vastíssima obra inclui poesia, contos, teatro, ensaios, biografias, praticamente todos os géneros que possamos imaginar. O interesse pelos autores modernos levou-o à tradução de Baudelaire e a monografias sobre Verlaine e Rimbaud, demarcando-se assim de formas literárias mais tradicionais. Apesar de ter viajado muito, mantendo uma intensa actividade criativa no decorrer das digressões, será em 1933, na sequência das fogueiras nazis onde os seus livros serão desfeitos em cinza, que resolverá abandonar definitivamente a Viena Natal, deslocando-se de França até Itália e fixando-se, posteriormente, em Inglaterra. Viagens ao Brasil e a Portugal levaram-no a interessar-se pela figura de Fernão de Magalhães, a quem dedicará uma das suas famosas obras biográficas. Em 1940 adquiriu cidadania britânica, mas no ano seguinte exilou-se no Brasil. No dia 22 de Fevereiro de 1942 acabou por se suicidar, deixando para a posteridade uma declaração de despedida onde agradece a hospitalidade brasileira. Não obstante, a depressão, a saturação e a desesperança levaram a melhor: «Depois dos meus sessenta anos seriam necessárias forças especiais para começar novamente tudo de novo». 
Sobre esta Novela de Xadrez (Livros do Brasil/Porto Editora, Março de 2017) recai a curiosidade de haver sido um dos seus escritos derradeiros, pressentindo-se nas personagens algumas das características que terão levado ao colapso de Zweig. Trata-se de uma pequena novela (cerca de 70 páginas nesta edição de bolso da muito recomendável Colecção Miniatura), aqui enriquecida por um prefácio de Álvaro Gonçalves e por uma cronologia biográfica. Narrada na primeira pessoa, Novela de Xadrez relata o inesperado encontro, numa viagem de navio entre Nova Iorque e Buenos Aires, com escala no Rio de Janeiro, entre um campeão mundial de xadrez e uma misteriosa criatura. A determinada altura, o narrador desloca o protagonismo para um monólogo desta estranha criatura. Temos, deste modo, dois narradores no interior de uma mesma narrativa, como teremos dois adversários à volta de um tabuleiro de xadrez. 
O primeiro, de origens muito humildes, provém da Eslávia do Sul (antiga Jugoslávia) e tornou-se campeão de xadrez acidentalmente. Passivo, lento, algo imbecil e fleumático, pouco inteligente, descobre, porém, um talento inigualável e inato para o xadrez. Esta descoberta torná-lo-á um rapaz-prodígio, daquelas personalidades em quem a natureza parece comandar todo o destino e o instinto todas as acções. Completamente diferente, a estranha criatura que se irá opor a este campeão é um indivíduo absolutamente cerebral. Saberemos da voz do próprio a sua história, enquanto a relata ao narrador que nos guia pelas particularidades de um jogo capaz de produzir as estrelas mais singulares. Capturado pelos nazis, experienciou a pior das torturas: «Não nos faziam nada – éramos colocados simplesmente no mais absoluto nada, pois, como se sabe, não há nada no mundo que produza uma semelhante pressão sobre a psique humana como o próprio nada» (p. 64). Esta pressão do nada, o vazio , a espera e a solidão, esta rotina do nada absoluto, a «maldosa tortura desta solidão», ele conseguirá superar decorando as jogadas de xadrez fixadas num livro que lhe virá parar às mãos. Do nada absoluto à obsessão total, a mente da estranha criatura transportá-la-á para o limiar da loucura, para uma «intoxicação de xadrez» alienante, doentia. 
O interesse desta partida está mais nas características dos adversários do que no jogo em si. Stefan Zweig coloca frente a frente, com o tabuleiro axadrezado da vida a separá-los, o talento inato e a obsessão intelectual, ambas características que facilmente reconhecemos na sua biografia. O nervosismo, a impaciência, a saturação pontuam as jogadas. Cada um destes jogadores pode ser interpretado como o “eu-brancas” e o “eu-pretas” de um mesmo intelecto, num desgastante desafio disputado no interior da alma de um homem. Profundamente psicológica, esta novela reflecte também uma leitura da Europa então destroçada por uma estapafúrdica doutrina política incapaz de entender como num mesmo ser humano se articulam de um modo conflituoso o inato e o adquirido. A maior derrota será ter de conviver com quem não o entenda, com quem se convença de uma natureza maquinal do ser. Independentemente da sua previsibilidade, o ser de um homem será invariavelmente tão fruto dos acasos e dos acidentes como da herança que carrega no sangue sem que o determine. Poucos meses antes de se ter suicidado, Stefan Zweig escreveu esta Schachnovelle e iniciou um estudo sobre Montaigne. E foi algures no meio destes dois projectos que terminou a sua autobiografia, literária e literalmente. 

AS PERGUNTAS #1

*

— Passa-se tanta coisa nesta cidade que nós não conhecemos.
— Sentes falta?

*

— Às vezes pergunto-me: por que aguento eu isto? Por que me sujeito?
— E o que respondes?

*


sexta-feira, 16 de junho de 2017

EPIFANIAS #18

18

                                    [Dublin, na North Circular
                                    Road: Natal]
Miss O’Callaghan — (cicia) — Disse-te o título,
        The Escaped Nun.
Dick Sheehy — (alto) — Ó, Jamais leria
        um livro desses… Tenho de
        questionar Joyce. Joyce, alguma
        vez leu The Escaped
        Nun?
Joyce — Reparo que certo
        fenómeno acontece por
        esta hora.
Dick Sheehy — Qual fenómeno?
Joyce — Ó… as estrelas aparecem.
Dick Sheehy (para Miss O’Callaghan) Alguma
        vez reparou como… as
        estrelas aparecem na ponta
        do nariz de Joyce por esta
        hora?... (ela sorri). . Porque
        eu reparo nesse fenómeno.


James Joyce, in Shorter Writings.

Versão de HMBF.

UM POEMA DE TOMAS TRANSTRÖMER


PANFLETO

A fúria silenciosa garatuja no lado interior das paredes.
Árvores de fruto em flor, o cuco canta.
É a anestesia primaveril. Mas a fúria silenciosa
pinta slogans na garagem do fim para o princípio.

Vemos tudo e nada, bem direitos como periscópios
manobrados pela tímida tripulação dos infernos.
É a guerra dos minutos. O sol abrasador
cai sobre o hospital, silo de estacionamento da dor.

Nós, pregos vivos pregados na sociedade!
Um dia libertar-nos-emos de tudo.
Sentiremos a aragem da morte nas nossas asas
e seremos mais condescendentes e mais selvagens do que até aqui.


Tomas Transtömer (n. 15 de Abril de 1931, Estocolmo, Suécia - m. 26 de Março de 2015, idem), in 50 Poemas, tradução de Alexandre Pastor, Relógio D'Água, Julho de 2012,  p. 103.