domingo, 24 de setembro de 2017

OS SONSOS


   Este vídeo tem dois pormenores que vale a pena registar: uma afirmação de Clara Ferreira Alves e a reacção de Daniel Oliveira. Reacção, neste contexto, faz ainda mais sentido tendo em conta de onde vem. 
   De Clara Ferreira Alves podemos esperar quase tudo no que respeita a anticomunismo primaríssimo, nomeadamente julgar que “o Partido Comunista tem poder a mais neste país”. É provável que esteja a referir-se aos sindicatos, essa corja que pouco mais tem feito pelo país do que impedir que ele progrida. Ao contrário, obviamente, do que têm feito humildes servidores tais como Pedro Passos Coelho, José Sócrates, Paulo Portas, Durão Barroso, entre outros admiráveis ex-primeiros e respectivos vices. 
   Outros bons samaritanos, sejam eles Belmiro, Amorim, Salgado ou Soares dos Santos, também merecerão toda a nossa admiração. Que as condecorações nunca lhes faltem, pelo pouco poder que têm tido e pelo tanto que têm feito,
   De facto, o excessivo poder do Partido Comunista tem sido ao longo destes 43 anos de regime democrático um cancro incomparável. Mais ainda face às fragilidades de quem nos tem governado, sempre tão débeis e carentes que acabam quase invariavelmente por juntar-se aos mais fortes lá de fora. A bem da pátria.
   A isto, Daniel Oliveira resolveu opor-se concentrando-se no elogio que a Dr. Alves, engolindo sapinhos, achou por bem direccionar ao candidato da CDU em Lisboa. Que mais poderia suscitar a ironia do ideólogo das esquerdas unidas. A boquinha de Oliveira é típica dos bloquistas, que nesta campanha têm feito pouco mais do que aquilo que melhor sabem fazer: enviar boquinhas. Depois dizem que não era nada com eles. Tamanha sonsice, estampada no rosto da Catarina e no peito cheio do Daniel, é um belíssimo cartão-de-visita apresentado por quem, afinal, só está concentrado em combater a direita.


P.S.: há um terceiro pormenor, mas não tem grande relevo. É do domínio da mais entediante banalidade a que Marques Lopes habituou os telespectadores do saudoso Eixo do Mal. Dizem sempre a mesma coisa, diz ele. Olha quem diz. 

quarta-feira, 20 de setembro de 2017

DYLAN THOMAS


Em versões muito livres e arriscadas, aqui e aqui. Para o Jorge Muchagato.
E mais este:

ESTE PÃO QUE REPARTO

Este pão que reparto foi outrora aveia,
Este vinho mergulhou sobre o fruto
De uma vide estrangeira;
Pelo dia o homem ou pela noite o vento
Sulcaram as baixas colheitas, deceparam a alegria da uva.

Outrora neste vinho o sangue de Verão
Bateu na carne que cobria a videira,
Outrora neste pão
A aveia foi feliz ao vento;
O homem domou o sol, puxou para baixo o vento.

Esta carne que repartes, este sangue que deixas
Criar desolação na veia,
Foi vide e aveia
Nascidas da raiz sensual e da seiva;
O meu vinho que bebes, o meu pão que mordes.

Dylan Thomas, in Twenty-Five Poems (Setembro de 1936)
Versão de HMBF

A PALAVRA E O CANTO

Há já algum tempo que ando para linkar um belo texto de Jorge Muchagato. Amália Rodrigues e Dylan Thomas conjugados numa experiência de vida íntima, mas confessável. Vale a pena ler na íntegra. Deixo um excerto:

Amália ia cantar em Lisboa numa noite de Abril desse ano de 1992, na Aula Magna da Reitoria da Universidade de Lisboa, em recital repartido com um cantor, numa ocasião de solidariedade que agora não recordo. E eu regressava: naquela sala a ouvi pela primeira vez ao vivo, nove anos antes, na noite de 26 de Maio de 1983 (a célebre apresentação com António Variações na primeira parte) e depois em 20 de Dezembro de 1985 na Gala dos Finalistas de Direito (com Luís Góis, António Bernardino, fado de Coimbra, Rosa Lobato de Faria, declamação, e Herman José). Sozinho fui, como quase sempre, feita uma ou outra excepção, ia aos recitais de Amália. Encontrei Amália no umbral do meu entendimento, a minha idade nunca esteve em acordo com as circunstâncias, com o tempo; nem com a arte em que me encontrava. E, com Amália, essa realidade adquiriu muito cedo, ao juízo dos outros, uma triste feição exótica. Todavia, eu alcançava a tristeza da triste feição, mas não compreendia o sofrimento do exotismo. Era-me indiferente, uma vez que dobrava o cabo do exotismo na recompensa da beleza do sofrimento e da tristeza. É bela, a tristeza, mas é necessário que se saiba tal coisa.
Cheguei cedo a Lisboa e entrei numa das livrarias que ao tempo mais frequentava e hoje já não existe, a Livraria Arco-Íris, no centro comercial do mesmo nome á avenida Júlio Dinis, frente ao Campo Pequeno. Apesar de ter sido fechada ao trânsito e sobejasse de duas ou três esplanadas e de meia dúzia de árvores domesticadas, sempre achei aquela rua triste e não encontro porquê. Talvez pelas ruínas de um prédio de pobre art nouveau portuguesa que lá resistiu. Recordo muito bem essa noite urbana pois nada havia nela de excepcional e a memória estava desprevenida de toda a fixação. A minha solidão aceitava no seu denso vazio a solidão nocturna; e ao mesmo tempo, em qualquer revolta profunda e impronunciável, rejeitava-a na frieza metálica e seca, estéril, do ruído do trânsito, do traço das luzes dos faróis dos automóveis e dos autocarros que se desfaziam de imediato na ilusão ocular, dos passeios percorridos por quase espectros apressados, sombras, precipícios alheios. Devo ter jantado em Lisboa nessa noite, creio que sim, para me achar ali. Havia um restaurante manchado de decadência precoce no piso abaixo do nível da rua, uma coisa angustiada e escura com laivos de glória perdida. Decidi fazer tempo na livraria até à hora do recital. Aprecio livrarias onde paire um silêncio suficiente, são lugares onde gosto de pensar e de encontrar, palavras em mim ou livros nas estantes.
E encontrei este livro de lombada tão breve: A mão ao assinar este papel, de Dylan Thomas (1914-1953), poeta de vida trágica que eu então não conhecia. O pequeno livro, com cinquenta páginas onde vivem doze poemas na sua linguagem original e na sua tradução portuguesa, exerceu sobre a minha sensibilidade um fascínio imediato.
(…)

Este livro salvou a minha solidão dessa noite, a mim, que nessa altura padecia da ilusão de ser salvo, até ao início do recital de Amália.

Jorge Muchagato, in O Sintoma da Verdade.

terça-feira, 19 de setembro de 2017

ANJO AMEAÇADOR

aceito a dor, osso esmagado pelo dente, 
a hemialgia silenciosa, o osso que rasga a carne, ruptura de ligamentos 
, deslocação da retina, o nervo infecto, a doença, aceito a dor como a um tratamento, abro-lhe os braços e tomo-a como a uma criança indefesa.
se me ameaça, 
é com toda a certeza por me querer, por me desejar como mais ninguém deseja.
a dor roda dourada, auréola luminescente sobre a cabeça, 
a dor que me quer anjo da guarda ameaçador.


segunda-feira, 18 de setembro de 2017

BANDA SONORA ESSENCIAL #18



   Há uma cena no filme de Oliver Stone sobre os The Doors que merece ser recordada. Jim Morrison, à beira de um colapso nervoso, olha para a caixa mágica do inferno: uma televisão (hoje, talvez olhasse para um smartphone). Vêem-se no ecrã imagens do Vietnam, motins nas cidades norte-americanas, manifestações pelos direitos cívicos, uma confusão de discursos, slogans, notícias, ideias feitas, frases incendiárias, a bomba atómica, a mãe de todas as bombas, coisas dessas. Há quem diga que o verdadeiro milagre daqueles tempos foi ter-lhes passado incólume conseguindo sobreviver-lhes. A imagem de Morrison a olhar para a televisão dá disso boa caricatura, enquanto algures no mundo um milhão se dirigia para o campo em busca da trip das suas vidas.
   O festival de Woodstock, no Verão de 1969, teve pouco que ver com aquilo a que hoje chamamos festivais de Verão - feiras populares, parques de diversões, tudo devidamente arrumado, organizado, desenhado, geometricamente distribuído por avenidas pensadas para vender consumíveis. Sublinhe-se: «O calor sufocava, as casas de banho estavam apinhadas, e não havia comida nem água em quantidade suficiente. Apesar disso, o público não arredou pé». Woodstock terá sido um teste, uma espécie de combate à loucura com loucura, uma espécie de "contraloucura" à maneira de contrafogo, o caos suspendendo por momentos a alienação quotidiana a que a década de 1960 obrigara. O mundo estava/está em guerra por todo o lado, a música era/é um antídoto imprescindível. 
   Como é sabido, os The Doors não estiveram em Woodstock. Mas esteve o supergrupo que reunia David Crosby (The Byrds), Stephen Stills (Buffalo Springfield), Graham Nash (The Hollies) e Neil Young. Este foi o último a juntar-se, tendo Déjà Vu (1970) ficado para a história como único registo gravado pelos quatro. E que registo! Young foi convidado a juntar-se ao grupo por Stills, com quem colaborara nos Buffalo Springfield, com a intenção de apoiar a banda ao vivo. A distribuição de canções em registo acústico/eléctrico ficou estabelecida desde o primeiro concerto. Neil Young não terá apreciado a actuação que acabou por consagrá-los em Woodstock, mas o futuro estava conquistado.
   Podemos interrogar-nos se Déjà Vu é um álbum de grupo ou um conjunto de canções de quatro compositores diferentes. A interrogação não aquece nem arrefece, redunda em exercício académico. Ouvimos no início o baixo de Gregory Reeves e percebemos quão eufemístico é o nome do conjunto. Execuções vocais excelentes, arranjos irrepreensíveis, solos de guitarra mágicos, órgãos de igreja, canções que são autênticos hinos a uma época de resistência. Difícil escolher uma, talvez nem seja aconselhável. Naquela que levou o nome do mais famoso festival de todos os tempos, assinada por Joni Mitchell, canta-se o que talvez devamos voltar a cantar: «I dreamed I saw the bomber death planes / Riding shotgun in the sky, / Turning into butterflies / Above our nation // We are stardust, we are golden / We are caught in the devils bargain/ And we got to get ourselves back to the garden». Antes que seja tarde. Antes que seja tarde.


REENTRÉE, DIZEM ELES

Ainda durante este mês, sai, na Assírio & Alvim, uma importante antologia de Rui Costa, Mike Tyson para Principiantes. O poeta, que morreu em 2012, aos 40 anos, em circunstâncias trágicas, é agora antologiado numa edição coordenada por André Corrêa de Sá e com organização de António Aguiar Costa, Cláudia Souto e Margarida Vale de Gato

sábado, 16 de setembro de 2017

HARRY DEAN STANTON (1926-2017)


Se o não recordarem por outros trabalhos, que o recordem por Paris, Texas (1984), um dos melhores filmes de Wim Wenders, onde Stanton teve o protagonismo que há muito merecia. Os fãs de western estavam familiarizados com o seu rosto. Stanton aparece em Revolt at Fort Laramie (1956) e em Tomahawk Trail (1957), ambos de Lesley Selander. Na década seguinte integrará o elenco do épico How the West Was Won (1962). O seu rosto torna-se familiar, surge nas margens com inconfundível personalidade. Sam Peckinpah requisita-o para Pat Garrett & Billy the Kid (1973), o filme em que Bob Dylan foi Alias e para o qual escreveu Knockin’ on Heaven’s Door. Filma com David Lynch, Martin Scorsese, entre tantos outros. The Straight Story (1999) é outro grande filme em que surge quase sem que demos por ele, algo que se tornou impossível depois de Paris, Texas.  


SENHOR VENTURA

O ideal seria passar ao lado, mas não é possível. O debate sobre Loures moderado por Judite Sousa elevou o fenómeno a um ponto que não pode nem deve ser ignorado. André Ventura, candidato do PSD à Câmara de Loures, insistiu nos preconceitos e nos estereótipos com um discurso racista altamente pernicioso. Judite Sousa ofereceu-lhe o privilégio de iniciar o debate, contra o que é usual, dado Ventura não ser o actual Presidente de Câmara, creditando-lhe o protagonismo que vai capitalizando à conta de uma comunicação social ávida de casos e de populistas como Ventura para conquistar audiências. Sabemos o que leva à promoção destes tipos, temos dúvidas sobre o que leva a que gente decente contemporize o problema e de algum modo olhe para o lado como se nada se passasse.
Esta estrela da CMTV, chamado a debater um pouco de tudo desde a bola à política internacional, pegou no elo mais fraco para dar nas vistas em Loures. O elo mais fraco é a etnia cigana, que segundo Ventura vive exclusivamente de subsídios. Os que vendem produtos contrafeitos nas feiras, mas que, desconfio, não são proprietários das fábricas desses produtos, já estão um passo à frente da sua miserável condição natural. Fossem à escola, poderiam chegar aos calcanhares de Duarte Lima, Isaltino Morais, José Oliveira e Costa, Ricardo Salgado, entre tantos outros membros altamente integrados e promovidos e premiados na sociedade do Senhor Ventura.
Sobre a pena de morte, este candidato defendido com unhas e dentes por Pedro Passos Coelho diz, com a maior das leviandades, que não a defende, mas não o choca que um terrorista seja executado. Eu também não tenho nada contra os Ventura, mas se pudesse recambiava-os todos para os acampamentos do Daesh. O mas é uma conjunção danada, traiçoeira do pior que pode haver. O discurso de Ventura surge sempre contaminado por inúmeros mas, desconfio que por defeito de personalidade. Já a defesa feita do seu discurso por Passos Coelho não deixa no ar mas algum, é típica de uma retórica básica que tende a colocar nos outros os defeitos próprios.
Não podemos ter medo dos demagogos e dos populistas que permitem que situações injustas perdurem, disse o líder do PSD. Quem mais senão Ventura pode ser acusado de demagogia e de populismo em toda esta história? Ainda ontem, numa breve passagem pela CMTV, lá o vi à mesa com o pobre Francisco Moita Flores. Esmifrava-se o desgraçado por tentar meter alguma coerência e razoabilidade na excitação de Ventura. Missão impossível. Gente como o Sr. Ventura não se rege pela razoabilidade do raciocínio. Para estes tipos tudo vale, desde que no final entretenham a plateia e levem para casa as palmas do público.
Seria fácil desmontar as tácticas e os discursos de Ventura, mas ainda ninguém se aventurou em tão nobre missão. Coloquem-lhe questões de resposta objectiva, peçam-lhe soluções para os problemas que o próprio coloca. Perguntem-lhe, por exemplo, se há casos de pedofilia na Igreja. Perguntem-lhe se os casos de pedofilia detectados na igreja são muitos ou são poucos. Perguntem-lhe se são os bastantes para que possamos afirmar dos padres católicos uma inclinação para a pedofilia. O problema das generalizações e dos estereótipos é precisamente este, tomamos o todo pela parte, criminalizamos o grupo pelas práticas de alguns dos seus membros. Não reconhecer a injustiça e o perigo de tão básica e capciosa argumentação é mostrar-se incapaz de perceber o que quer que seja.
Ventura não quer perceber nada. É um incendiário, é um tipo que chama a si as atenções falando mais alto do que os outros. A ênfase que coloca em cada afirmação que faz é típica dos homens inseguros e pouco inteligentes. À sabedoria convém uma serenidade que escapa de todo a estes indivíduos. Sempre tivemos disto na política. O problema é que em tempos havia nestes indivíduos alguns filtros entre o que pensavam e o que afirmavam. Num tempo como o nosso, cada vez mais cativo do exibicionismo público do privado, cada vez menos filtrado pela razão, cada vez mais motivado pela ambição de popularidade, os filtros desaparecem. E entre o que se pensa e o que se diz deixa de haver qualquer pausa, qualquer hiato, qualquer filtro, qualquer ponderação. Chegamos a ter saudades de uma certa dose de “politicamente correcto”, tal a palhaçada a que chegámos.

sexta-feira, 15 de setembro de 2017

UM PEQUENO FASCISTA

O fascista “tem colhões” e gosta de os mostrar. Isto é suficiente para definir um pequeno fascista. Ele só se torna um pouco maior quando usa continuadamente a estratégia do espantalho universal, isto é, a estratégia que consiste em fundir as grandes questões políticas, sociais e morais (o fascista é sempre hipermoral) nos problemas privados e da vizinhança. Trata-se de categorizar os grandes sujeitos colectivos a partir de pessoas singulares.

António Guerreiro, aqui.

VER AO LONGE

Passados quase oitenta anos sobre a primeira edição de Nome de Guerra, esboçado, alinhado, escrito em 1925, podemos hoje garantir não ter sido por acaso que tal romance se tornou um símbolo maior do modernismo português. Não fosse por outra razão, bastaria a José de Almada Negreiros tê-lo escrito para ficar na história da literatura portuguesa. Os sessenta e quatro capítulos desta narrativa, tantas vezes com títulos que são eles mesmos aforismos para a eternidade, dão-nos na figura de Antunes o retrato vivo de alguém que entra na idade adulta pela porta grande de uma íntima sinceridade. Toda a gente sabe hoje do romance entre Antunes, provinciano deslocado na cidade, e a jovem Judite, rapariga de clube nocturno com dezanove anos de mentiras, aldrabices, enganos e ilusões prestadas ao mundo e, por consequência, a si própria. De Maria, a jovem enamorada de Antunes que se ficou pela província numa vã esperança de amores futuros, pouco se fala. A notícia da sua morte actua sobre o amante longínquo como uma espécie de epifania. A ausência da sua figura será determinante para Antunes, sobretudo naquele momento de descoberta interior para lá do outro, para lá do que os outros pensam, para lá da experiência social, para lá da sociedade.
   Neste livro os planos são claros como raramente se nos apresentam. A sociedade é o palco do fingimento, das intrigas, é a mesa de jogo onde o vício impõe o bluff como verdade. Mas dentro do indivíduo, dentro do homem que se afasta e isola, a verdade surge na forma de drama, é uma tragédia íntima, pessoal, singular que já nada tem de logro ou fingimento. É uma verdade superior às circunstâncias, uma verdade que chega à consciência com a raiva de quem descobre nas suas fraquezas uma força inédita: 

«Ele queria a verdadeira mentira, essa que vale tanto de noite como a verdade de dia. Mas por mais que fizesse não conseguia deixar de ver diante de si em todos os homens e em todas as mulheres caricaturas grotescas, estrangeiras, tortas, incompreensíveis, inúteis, vivas, em carne e osso, como gente, hediondas, malditas, metamorfoses que não prosseguem, que ficam informes, aos pedaços, mal feitas, mal fabricadas, erradas, empecilhos, envenenadores da memória, mascarados, oiro de cenografia vista ao pé, papelão a fingir carne, barato e sem ilusão. Eles tinham esgotada a imaginação: incapazes de ironia e de optimismo, esmagados pela realidade, esborrachados pela vida, impossibilitados, estampados, inválidos, parados. A imaginação reduzida à fantasia, o artifício limitado à mecânica. Nem verdade nem mentira, nada! Nem desequilíbrio nem erro, nada! Bonecos, fantoches, sem saída, corpos sem alma, almas que morreram primeiro do que os corpos! Gente que ia de passagem e ali ficou para sempre. Copiam, repetem, imitam, representam, mas de repente a sina escurece outra vez. Ficam os foles em vez da respiração» (Assírio & Alvim, Setembro de 2001, p. 112). 

   Mais do que os manifestos, este é o autêntico manifesto do modernismo português. A demanda da verdade traz para dentro dos livros a noite lisboeta, as varinas, o comércio nas ruas com suas tabuletas, as prostitutas, os palermas e os malandros, o crude das relações humanas, a besta domesticada, adormecida, maquilhada, escondida no mais fundo de cada ser, faz vir à tona o gene, o ADN, de uma humanidade mais do que contraditória, problemática, atirando logo de intróito às trombas do leitor a pergunta que se impõe: «Haverá assim necessidade da mentira para defender a verdade?» (idem, p. 13) Platão, no idealismo da sua República, responderia que sim, quando necessário. A mentira útil concilia-se amavelmente com a Verdade Absoluta no nervo da lei, mas Almada transcende o idealismo para mergulhar na terra. O modernismo é esse salto mortal no escuro da vida, tal como Antunes no alto da prancha da paixão mergulhou para o vazio e ficou a ler o destino nas estrelas. 
   O nome de guerra já não é o de ataque, também não é o de defesa, talvez seja o cordão umbilical do pseudónimo que descobrimos nas entranhas do ser. «Há gente com muita vida e que não tem vida de seu», constata-se, ao mesmo tempo que Antunes confessa não temer a vida como teme não vivê-la. Os homens não mudam assim tanto ao final de oitenta anos que possa a mudança desactualizar o romance maior de Almada. Observando a actualidade de uma janela, facilmente concluiremos serem mais as Judite do que os Antunes nas ruas. Os problemas mantêm-se, a mania dos varrer para debaixo do tapete glorifica os dias, passados na imensa maioria dos seus minutos a fingir que se tem o que na realidade não se é. A confusão entre o ser e o ter vem a propósito, como sempre nestas matérias. O exibicionismo material garante estatuto, mas não confere verdade alguma. 
   Está por escrever outro romance, aquele que se questione acerca do porquê da verdade. Afinal, precisamos da verdade para quê? Não nos chega a ilusão pura, isto é, a ilusão sem consciência de si mesma? Andar ao engano será assim tão mais doloroso do que ver por olhos próprios as rugosidades do destino? A certa altura, debilitado pelas amarguras da paixão, o nosso Antunes fala de si para si mesmo: «O mais difícil era ficar outra vez ignorante: aquela genial ignorância das idades onde se começam todas as coisas deste mudo». Felizes os néscios e os parvos, as crianças e os loucos, para sofrer basta-nos abrir os olhos. Que dormir seja o remédio. Ver o longe vendo ao longe é olhar para dentro e descobrir-se vazio, desprovido de tudo quanto faça sentido a um homem na terra, vazio e oco como um tronco podre. Desse tronco não brotarão frutos, ele é apenas uma vida morta. 
   Ora, o que se quer é uma vida viva, uma vida vivida sem medo de ser julgada, o que se quer, afinal, não é andar às cegas como os da parábola de Bruegel na direcção do abismo. Mais tarde ou mais cedo, por ele seremos engolidos. O que se quer é arrancar da vida um fruto maduro para depois degustá-lo. «Ninguém pode escolher o que connosco se passa até à chegada da nossa consciência. E depois?» Depois é ver a vida compensada. «A pessoa verdadeira prefere inimigos autênticos a admiradores sem pontaria». Duvidam?

quinta-feira, 14 de setembro de 2017

DANCES WITH WOLVES (1990)


Depois de um acentuado declínio com cerca de trinta anos, o western conheceu na década de 1990 dois momentos altíssimos. Clint Eastwood (n. 1930) assinou Unforgiven (1992), revisitação dos clássicos a merecer as atenções da Academia com quatro importantes Oscar: melhor filme, melhor actor secundário para o enorme Gene Hackman, melhor realizador, melhor montagem. Menos experiente nestas andanças, apesar de Silverado (1985), o actor Kevin Costner (n. 1955) estreou-se na realização com Dances With Wolves/Danças com Lobos (1990). A aposta valeu-lhe sete Oscar, entre os quais os de melhor filme e de melhor realizador. Não é de admirar o sucesso, tudo neste filme parece ter sido pensado para agradar a quem tem do cinema uma concepção épica. Mas se Dances with Wolves peca pelo moralismo interesseiro, recuperando para os Sioux a dignidade ferida por uma indústria que tantas vezes foi leviana na diabolização dos indígenas, capitaliza num certo romantismo imagético sobre a relação do Homem com a Natureza.
Tratando-se de um filme repleto de improbabilidades, não deixa de nos tocar nesse ponto fulcral onde o homem se encontra consigo mesmo, à medida que aceita a transformação da sua identidade no convívio solitário e isolado com o meio envolvente. O cenário é de vastas planícies, entre as quais o lobo solitário será um símbolo por excelência da identidade do nosso herói. Mais ainda pelas assimilação e integração dos valores básicos de uma tribo que o acolherá. Paradoxalmente, o encontro com o selvagem operado ao longo da história torna-se, também, um momento de consciencialização da barbárie, a qual surge, e não é original tal associação, no domínio de uma civilização em estado de absoluta alienação. Três tentativas de suicídio pautam o ritmo da narrativa. Dois deles falhados, outro consumado, indicam o poder determinante do acaso sobre a vida e o estado de degenerescência da paisagem humana aqui retratada.
Numa tentativa de se matar, o Lieutenant Dunbar achar-se-á elevado ao estatuto de herói no decorrer de uma batalha em plena Guerra Civil. Condecorado pelo feito improvável, filmado numa sequência inicial cujo enquadramento logo nos diz ao que vamos, pede para ser colocado na fronteira. Consegue-o, sendo enviado para um posto ao abandono. Ali ficará sozinho meses a fio, tendo por companhia apenas o cavalo e um lobo que o observa à distância. Os índios aparecerão depois. Uns muito maus, outros muito bons, continuam sem ter neste filme a homenagem merecida, ensaiada por Ford com Cheyenne Autumn (1964).
Se limparmos a maquilhagem sentimental com que ficamos? A resposta é simples, ficamos com uma mão cheia de belas cenas num cenário de pura ficção. Há delas inesquecíveis. Numa das melhores vemos um homem a dançar à volta de uma enorme fogueira. É o momento preciso em que percebemos a metamorfose do Lieutenant Dunbar em Dances With Wolves, nome de baptismo sioux. Está sozinho no seu posto, já depois de ter estabelecido comunicação com os vizinhos indígenas, conquistando-lhes respeito e sendo aceite como um entre mais. A cena é especialmente bonita por ser também nesse momento que o homem se encontra com o lobo, um animal que traz dentro de si e renasce naquela dança circular, em torno do fogo, dança poderosa de convocação do eu interior. Os espíritos, instalados num lugar que é o deles, bem podem por lá ficar. Nesta dança é o homem que se convoca a si mesmo, o homem natural, íntegro, selvagem nesse sentido das coisas puras, iniciáticas, únicas, singulares. Dunbar queria ir para a fronteira antes que ela desaparecesse, nela se instalou para a superar. Aquele momento, aquela dança, é o símbolo da transposição. A fronteira entre o eu e o outro que existia na consciência corrompida do Lieutenant desapareceu, sumiu-se com os fumos das altas chamas.

A paixão de Costner pelo western não se ficou por aqui. Regressou no papel de Wyatt Earp (1994), dirigido por Lawrence Kasdan (n. 1949), e voltou à realização com uma história de amizade ao lado do experiente Robert Duvall (n. 1931). Open Range – A Céu Aberto (2003) ficou a milhas do sucesso alcançado com Dances with Wolves (1990). Nestas como noutras matérias o sucesso jamais será o melhor conselheiro.

UM POEMA DE JOHN KEATS


A QUEM NA CIDADE ESTEVE TÃO LONGO TEMPO

A quem na cidade esteve tão longo tempo
sabe como é grato olhar para a face serena
e aberta do céu, erguer uma prece
ao firmamento azul que para nós sorri.
Quem será mais feliz, se com alma jubilosa
descansa num acolhedor lugar entre a erva
ondulante, e lê uma aprazível história
daqueles que se abandonaram ao amor?
Ao entardecer e no regresso a casa, escuta
a canção do rouxinol e depois com o olhar
segue o caminho de uma pequena nuvem;´
lamenta, então, a pressa com que passou o dia
semelhante a uma lágrima caída de um anjo
que atravessa a transparência do céu, silenciosa.


John Keats (n. 31 de Outubro de 1795, Moorgate, Londres - m. 23 de Fevereiro de 1821, Roma), in Poesia Romântica Inglesa, trad. e pref. Fernando Guimarães, Relógio d'Água, Fevereiro de 2010, p. 123.

MINISTRO DAS FINANÇAS EUROPEU


Não, obrigado.


quarta-feira, 13 de setembro de 2017

CRISE & SUICÍDIO


Seria bom que algum jornalista fosse pedir um comentário ao secretário de Estado e Ministro da Saúde do Governo de Passos, Fernando Leal da Costa. Seria também esclarecedor perguntar a Paulo Rangel, tão assertivo no nexo de causalidade entre a incompetência do Governo de Costa e os mortos de Pedrógão, o que pensa destes números.

CONFISSÕES DE JEAN-JACQUES ROUSSEAU




   Um dos desafios colocados ao leitor por obras tais como as Confissões, de Jean-Jacques Rousseau (n. 1712 – m. 1778), é o de a todo o momento termos de manter certa desconfiança para com o autor, não tomando como verdade absoluta e definitiva a palavra de quem se confessa. Há uma intenção neste tipo de escritos que a tal obriga, nomeadamente a defesa de si mesmo levada a cabo por quem escreve e lega à posteridade uma perspectiva pessoal e subjectiva, defendendo-se de quem e do que a ele se tenha oposto em vida, uma defesa em nome de uma verdade, não necessariamente da verdade. Jorge de Sena, no prefácio à edição portuguesa com o selo da Relógio d’Água (1988), doze livros distribuídos por dois volumes concluídos com um proveitoso sumário, alerta-nos para os factos sob a forma de interrogações: «Foi Rousseau sincero nas Confissões? A sua sinceridade é fingida? É impossível a sinceridade que ele buscou? A divisão, em que ele culminou, para autojustificar-se, entre Rousseau e Jean-Jacques, não será o símbolo de que a sinceridade é dupla e dúplice, conforme é literária ou humana?» Por vezes contraditório, outras vezes ambíguo, aqui e acolá lacónico, Rousseau fez a sua defesa, porque disso se trata, não no plano da verosimilhança ou da veracidade, não no plano da autenticidade ou da sinceridade, mas antes no plano da retórica, procurando convencer os seus leitores da boa vontade que o terá guiado em vida, contra as acusações de misantropia, de arrogância, de ateísmo, de cólera, de desonestidade, entre outras que o atingiram. No que coincidem réu e acusação, podemos estar certos de que o autor de Confissões foi uma das mentes mais brilhantes do seu tempo. E não foram poucas as que nos ficaram do séc. XVIII. 
   A vantagem de Rousseau sobre os demais são as curiosidades biográficas, os dilemas e certas opções, notas que conferem à sua história um interesse de tipo cinematográfico. Porventura estaremos no campo do caricato, da menos interessante das dimensões num Autor deste calibre, embora a vivacidade com que legou à posteridade este auto-retrato possível nos leve a crer em fundamentos para o pensamento cuja ligação à vida vivida, à existência e à experiência, terá sido determinante. Natural de Genebra, não chegou a conhecer a mãe. Faleceu esta na sequência do parto. «A minha infância não foi a de uma criança; senti, pensei sempre como um homem. Foi só quando cresci que entrei na classe ordinária; ao nascer, tinha dela saído. Rir-se-ão de me verem modestamente apresentar-me como um prodígio. Pois sim: mas quando se fartarem de rir, achem uma criança que, aos seis anos, se prenda, interesse e entusiasme por romances a ponto de se desfazer em lágrimas com eles; então, sentirei a minha vaidade ridícula, e convirei que ando mal» (Vol I, pp. 72-73). Mas não eram apenas os romances que entusiasmavam Rousseau. O amor à Natureza, a inclinação para o isolamento, os passeios solitários, ficaram-lhe da infância para a vida. Sobre eles escreveu páginas imprescindíveis, na decorrência deles chegou a notáveis conclusões: «Geralmente, os protestantes são mais instruídos do que os católicos. Deve sê-lo assim: a doutrina de uns exige a discussão, a dos outros, a submissão» (Vol I. p. 75). E o autor de Emília experimentou ambas as doutrinas, com conversões e reconversões ao longo da vida que lhe valeram fatais acusações de ambivalência religiosa. 
   Entre os episódios mais caricatos destas memórias, conta-se a aventura ingénua, embora picante, com certo mouro em contexto de seminário. A sexualidade chegou-lhe pelas mãos da pederastia, ao que parece velha tradição católica longe de ter sido ultrapassada. Curiosamente, não serão muitas as mulheres na vida de Rousseau. Françoise-Louise de Warens, a quem chamará de mamã toda a vida, preencherá o lugar deixado vago pela mãe natural, numa confusão de paixões e de amor fraternal dificilmente destrinçável. Foi o sustento do jovem e intrépido compositor e filósofo durante largos períodos de autêntica vagabundagem. Com a singela Thérèse Levasseur casou e teve os filhos que entregou na Roda, mas nas Confissões fica claro que o coração se lhe atracou noutros portos. Sophie d'Houdetot terá sido o amor falhado para a vida que o filósofo guardou no coração. Não obstante, é impressionante que apesar da cultura tenha mantido a mulher analfabeta, se tenha escusado à educação dos filhos contra o que o próprio deixou escrito em relevantes ensaios, optando por uma solidão e por um recolhimento que poderiam ser confundidos com egoísmo não fossem os sinais de altruísmo e de generosidade deixados noutros contextos. 
   O que parece ser inquestionável é o ódio aos salões que a determinada altura o assaltou, o gosto pela vagabundagem e o culto da solidão, afastando-o de amigos como Denis Diderot (n. 1713 – m. 1784), provocando a desconfiança de homens como Jean le Rond d’Alembert (n. 1717 – m. 1783), altercando com grandes vultos seus contemporâneos tais como Voltaire (n. 1694 –m. 1778), fomentando ódios, intrigas e querelas entre as quais a mantida com o barão Friedrich Melchior von Grimm (n. 1723 – m. 1807) foi a mais acesa e nefasta. Se o objecto das Confissões é dar a conhecer o íntimo de um homem, elas acabam por nos dar igualmente uma paisagem dos tempos a partir da crítica de um olhar: «Estava tão farto de salões, de repuxos, de bosquezinhos, de canteiros, assim como das mais aborrecidas pessoas que mostram tudo isto; estava tão cansado de folhetos, de cravos, de «tris», de nozinhos, de tolos ditos de espírito, de insulsas denguices, de pequenas frioleiras e de grandes ceias, que quando deitava o rabo do olho para uma simples e pobre moita de espinheiros, uma sebe, uma granja, um prado; quando, ao atravessar um povoado, aspirava os vapores de uma boa omeleta com cerefólio; quando ouvia ao longe o rústico refrão da canção das rendeiras, mandava ao diabo o vermelhão, e os folhos, e o âmbar, e chorando o jantar caseiro e o vinho da região, de boa vontade teria ido ao focinho do Sr. Chefe e do Sr. Mordomo que me faziam jantar às horas a que ceio, cear às horas a que quero dormir; mas sobretudo ao dos Srs. Criados, que com os olhos devoravam o que tinha no prato, e, sob pena de morrerem de sede, me vendiam o vinho avariado dos patrões dez vezes mais caro que o melhor que poderia pagar na taberna» (Vol II. P. 133). 
   De saúde fragilizada por uma nefrite, incapaz já de voltar a sentir amor, distanciado das elites aquando do sucesso, acusado de misantropia, perdido num labirinto de correspondência onde o pedantismo, o arrivismo, a falsidade, a arrogância são sempre fortes ameaças à verdade, odiado pelas teses defendidas no Discurso Sobre a Desigualdade, tanto quanto a aristocracia pode odiar a quem a pretenda destronar, perseguido por Jesuítas, jansenistas, filósofos, Rousseau viu os escritos serem-lhe queimados na fogueira. O filósofo inglês David Hume (n. 1711 – m. 1776) foi uma amizade improvável já nos últimos anos de vida. Verdadeiras ou pretensiosas, as Confissões de Jean-Jacques Rousseau legam-nos uma sabedoria que transcende as memórias de um homem. São, à sua maneira, uma obra de filosofia da qual podemos reter, nas entrelinhas ou com clarividência metódica, ensinamentos eternos: «Compreendo como os habitantes das cidades, vendo apenas paredes, ruas, e crimes, têm pouca fé; mas não compreendo como a não podem ter os camponeses, e sobretudo os solitários. Como é que a sua alma se não eleva extasiadamente cem vezes por dia ao autor das maravilhas que os impressionam? Por mim, é sobretudo quando me levanto, abatido pelas insónias, que, graças a um longo hábito, sou levado a estas elevações do coração, que não impõem a fadiga de pensar. Mas para isso é preciso que os meus olhos se impressionem com o arrebatador espectáculo da natureza. No meu quarto, oro mais raramente e com mais secura: à vista, porém, de uma bela paisagem, sinto-me comovido, sem saber dizer porquê» (Vol II. P. 346). Tradução de Fernando Lopes Graça. 

terça-feira, 12 de setembro de 2017

DEGUSTAÇÃO

Não nasci para ser gostado, é de sangue e mau feitio, tenho artroses, corcundas, sou antipático, há quem me julgue mais pelo que sou do que pelo que fui, há quem me julgue mais pelo que pareço, mas no geral passo despercebido, ao lado. 
Tenho esta espécie de talento para ir falhando, embora aqui e acolá decalcado, mais nas intenções do que nos modos, respiro uma certa altivez que a distância confere. 
Também não gosto de mim, o que é meio caminho andado. 
Devo ter cromossomas de vampiro, odeio espelhos, desde pequeno que os evito, e nas águas jamais procurei o rosto senão para lavá-lo da sujidade com que as mãos mancham à minha volta a passagem. 
Há quem nasça com o cu voltado para a lua, há quem faça pela sorte, eu nasci simplesmente com o cu algures entalado entre tronco e pernas, serve-me para o mesmo que serve a todos, mas nada de degustações. 
Aqui só pousará a mão quem por sorte venha a saber-me o mais hipócrita dos cínicos.
Convém-me a tortura, digamos, de saber no alto da torre os mais vigilantes. 
Sem cálculo, dou um passo a seguir ao outro na direcção única do futuro: a morte trará paz até a quem nunca foi soldado, sondado, soltado, sonhado. 

ETERNO FEMININO

Faz-me lembrar
o meu romance
do Rio Grande.

Eu era vaqueiro.
Suava cavalos,
comia bom bife.

Ela dormitava
lá no Rio Grande.

Um dia, ela disse:
Traz o meu cavalo,
vem daí comigo.

Fui.

Ruy Cinatti, do livro Conversa de Rotina (1973), in Obra Poética, volume I, Assírio & Alvim, Outubro de 2016, p. 758.

JÁ APARECE


Em pré-venda, na Fnac.

EPIFANIAS #29

29

Uma longa galeria curvada: do chão emergem pilares de vapores escuros. Está povoada por imagens de reis fabulosos, incrustados na pedra. Têm as mãos dobradas sobre os joelhos, em sinal de fadiga, e os olhos escurecidos pelos erros humanos sobem por eles como vapores escuros.

James Joyce, in Shorter Writings.

Versão de HMBF.

UMA IMAGEM


VÍDEO-ÁRBITRO

Quem goste de bola sabe que este ano será um ano diferente de todos os outros. A razão para que assim seja justifica-se pela adopção do vídeo-árbitro. Consiste este na possibilidade de decidir em tempo real sobre a legalidade ou ilegalidade de um lance. Uns tipos numa cabine são pagos para assistir ao jogo, analisando lances polémicos e comunicando ao árbitro de jogo os seus veredictos. Noutros tempos, passávamos semanas inteiras a discutir as mesmas imagens sem chegar a qualquer conclusão. Mesmo árbitros e ex-árbitros manifestavam dúvidas e contradições na avaliação de certos lances. Agora há uns especialistas que conseguem, por artes mágicas, decidir em segundos da legalidade do que sem a sua interferência seria para sempre duvidoso. Não sou nem deixo de ser adepto do vídeo-árbitro, é-me indiferente. Quem gosta desta inovação olha geralmente para o futebol de fato e gravata, chamam-lhe indústria do futebol e preocupam-se com uma suposta verdade desportiva como se ela não fosse há muito um mito. Que verdade desportiva poderá haver quando um jogador de futebol é transferido de clube por 220 milhões de euros? O espectáculo há muito que deixou de ser o jogo em si, é o universo das apostas e a loucura das transferências. Varrida para um canto, a verdade desportiva nada interessa. O dinheiro comanda cada vez mais a existência desse desporto que deixou de ser desporto para passar a ser mero negócio, com os seus empresários e comentadores de fato e gravata. Uma nojeira. 

segunda-feira, 11 de setembro de 2017

ACERCA DA VERDADE

Num livro esquecido dos anos 60, Jorge Semprún conta uma história que tinha lido ou ouvido de Ievtuchenko sobre Pasternak. “Certo dia” - escreve Semprún - “um operário pediu a Pasternak que lhe apontasse o caminho da verdade. O escritor respondeu: ‘Que ideia a tua! Nunca tive a intenção de apontar a alguém fosse o que fosse. O poeta é como as folhas duma árvore que sussurram com o vento, mas não tem o poder de encaminhar ninguém.’” Semprún comenta então: “Todos conhecemos este hábito dos poetas se confundirem com o reino vegetal: comparam-se a árvores, folhas, algas.”



Claro que Pasternak, talvez por humildade, talvez por orgulho, não disse ao operário tudo o que pensava. É óbvio que o poeta não pode apontar o caminho da “verdade” porque ninguém sabe exactamente o que é “a verdade” e, portanto, ainda menos o caminho para lá chegar. Mas a poesia, e isso sabemo-lo todos, encerra uma espécie de verdade própria, essencial, subterrânea, capaz de revelar territórios desconhecidos no avesso do mundo.

Rui Manuel Amaral, no Bicho Ruim.

LITERATURA E REVOLUÇÃO

Na biografia que dedicou a Léon Trotski (n. 1879 – m. 1940), o poeta brasileiro Paulo Leminski mostra-se especialmente atento ao livro Literatura e Revolução, referindo-se-lhe como o livro em que Trotski «formulou com maior clareza suas utopias mais vastas, a medida de amplidão do sonho revolucionário que o consumia e impulsionava». A história de Trotski é geralmente reduzida a três momentos essenciais: a adesão à facção bolchevique liderada por Lenin e, na sua sequência, o relevante papel desempenhado na chamada Revolução de Outubro; a perda de influência para Stalin após a morte de Lenin; a expulsão do partido em 1927, seguida de exílio e assassinato no México. Os pormenores ficam para depois. A história de Literatura e Revolução é o que aqui mais nos interessa. Leminski diz que o livro foi fundamentalmente escrito no Verão de 1922, ou seja, numa altura de conflito aceso com a ascensão estalinista. No início, deveria ser apenas um prefácio para a edição das suas Obras. Acabou por resultar na «mais lúcida meditação sobre arte e literatura deixada por um bolchevique» (idem). 
Um dos aspectos mais reveladores desta obra está sublinhado na nota do editor à edição portuguesa, com tradução de Serafim Ferreira, e edição da Editorial Fronteira (Dezembro de 1976): «Trotski rejeita qualquer forma de censura sobre os artistas e formula  mesmo o princípio da “liberdade total no domínio da arte”». De facto, isso mesmo podemos aferir quando, de um modo muito incisivo, o autor por diversas vezes afirma que «A arte e a ciência não procuram patrões; a arte, pela sua própria existência, sempre os recusou»; ou que «A arte, como a ciência, não exige ordens e, pela sua própria essência, nem sequer as tolera». Mas Trotski vai mais longe, ao defender «que não existe qualquer cultura proletária, nem nunca haverá. E, na realidade, não há razão para o lamentar: o proletariado tomou o poder precisamente para acabar aí para sempre com a cultura de classe e abrir caminho a uma cultura humana». Entusiasmado com a alfabetização das massas, excitado com a possibilidade de uma cultura artística aberta a todas as expressões e para todos, Trotski manifesta-se, porém, um crítico acérrimo de todas as formas de misticismo, pessimismo, cepticismo, de uma tendência a que chama “cosmismo”, variante do misticismo, não se furtando a apontar o dedo quando julgava necessário: «Sob a máscara de um cidadão civilizado, o nobre Versilov foi no seu tempo o parasita mais esclarecido da cultura estrangeira»; «Pelo seu parasitismo intelectual, pela sua bajulação, pela sua vilania, Rozanov apenas conseguiu levar a uma lógica os seus próprios traços espirituais comuns: a cobardia perante a vida e a cobardia perante a morte»; «O que é mais exacto e mais constante em Rozanov, de facto, é o seu rastejar de verme perante o poder. É um verme que escreve, um verme que se estende, desliza, encolhe, se contrai e se descontrai consoante as necessidades, mas desagrada sempre por ser um verme»; «Biély é um cadáver e não ressuscitará em nenhum Espírito, seja ele qual for»As preferências do autor vão para Blok, a sua tolerância vai para o futurismo de Maiakóvski e seus afilhados: «Biezmienski seria impossível sem Maiakovski e Biezmienski é realmente uma esperança»
Passados cem anos sobre a Revolução de Outubro, dentro em breve cem anos terão passado sobre esta obra de um dos rostos da Revolução. Que nos oferece ela no nosso tempo? Que nos poderá oferecer para o futuro? Desde logo a ideia de que a criação artística é inerente ao processo histórico, impulsiona a mudança e promove o olhar crítico, gera rupturas e acompanha a histórica na sua dinâmica imparável. A arte é uma engrenagem desse processo, não é um elemento decorativo dos paradigmas, não se esgota no elemento lúdico da sua acção nem pode reduzir-se ao entretenimento que a sociedade de consumo lhe exige. A criação artística, inalienável da vontade humana, promove a cultura mesmo quando lhe questiona os valores supostamente mais firmes.
«Temos necessidade de cultura no trabalho, de cultura na vida, de cultura nas relações quotidianas». Esta percepção do autor de Literatura e Revolução chega-nos hoje com a mesma vivacidade com que era proferida em 1923, tendo até talvez uma outra urgência, uma urgência assinalada por um dos maiores ataques à cultura que vem sendo perpetrado nos últimos anos pelas tecnologias da alienação, uma indústria de pós-verdade com resultados à vista, assente no delírio, na superficialidade, na excitação momentânea, na idiotização e na infantilização das massas, ou seja, na privação de cultura, na usurpação de valores absolutamente vitais para a democracia, como sejam a verdade e a liberdade. Não há, jamais haverá, liberdade num mundo de mentira e de ilusões. Poderá apenas haver uma domesticação asfixiante da criação, a qual terá também ao seu dispor os homens novos da parvalheira geral, todos eles estilo e opinião, todos eles magnificamente preparados para se entreterem com a discussão do sexo dos anjos enquanto, protegidos pela distracção geral, os anjinhos do Deus mercado surripiam bancos, paisagem, bens essenciais. «A arte pode ser o maior aliado da revolução desde que permaneça sempre fiel a si mesma». Ora aí está um belo ensinamento a reter no presente e para o futuro. 

domingo, 10 de setembro de 2017

A PROPÓSITO DE FURACÕES

   O muro que separa a arte da indústria, e também aquele que separa a Arte da Natureza, hão-de ruir. Claro, não no sentido em que Jean-Jacques Rousseau dizia que a arte se aproximará cada vez mais da Natureza, mas no sentido em que a Natureza será trazia para mais perto da arte. A actual paisagem oferecida pelas montanhas, pelos rios, pelos campos e prados, pelas estepes, florestas e costas marítimas não pode considerar-se como definitiva. O homem operou já algumas mudanças não despidas de importância no mapa físico da Natureza, mas são simples exercícios de estudante em comparação com o que se há-de alcançar. A fé podia apenas prometer deslocar montanhas, a técnica, que nada admite «pela fé», há-de eliminá-las e há-de realmente deslocá-las. Até agora, sim, apenas obedeceu na verdade a meros objectivos comerciais ou industriais (abertura de minas e túneis), mas no futuro há-de fazê-lo numa escala incomparavelmente maior, de acordo com planos produtivos e artísticos mais alargados. O homem estabelecerá um novo inventário das montanhas e dos rios. Emendará a sério e mais do que uma vez a própria Natureza. Há-de remodelar, eventualmente, a terra a seu gosto. E não temos razão nenhuma para temer que o seu gosto será mesquinho.
   O poeta Kliouev, polemicando com Maiakovski, declara com malícia que «não convém ao poeta preocupar-se com as gruas» e que «no íntimo do seu coração, não mais em lado nenhum, é que se funde o oiro purpúreo da vida». Ivanov-Razumnik, um populista que foi socialista-revolucionário de esquerda, e isto diz tudo, veio meter o seu grão de sal na discussão. A poesia do martelo e da máquina, declara Ivanov-Razumnik, visando Maiakovski, será passageira. Devem falar-nos da «terra original», da «eterna poesia do universo». Por um lado, uma fonte eterna de poesia, e por outro lado a poesia efémera. O idealista semimístico, enfadonho e prudente, Razumnik, prefere naturalmente o eterno ao efémero. Esta oposição da terra à máquina não faz sentido; ao campo ainda atrasado não se pode opor o moinho ou a plantação ou a empresa socialista. A poesia da terra não é eterna, mas transitória e o homem só começou a cantar depois de ter colocado entre ele e a terra os utensílios e os instrumentos, essas máquinas rudimentares. Sem a forquilha, a foice, a charrua, não haveria nenhum poeta do campo.

Léon Trotski, in Literatura e Revolução, trad. Serafim Ferreira, Editorial Fronteira, Dezembro de 1976, pp. 138-139. O sublinhado é meu, para revisão crítica passados quase 100 anos sobre o texto original. Cabe-nos reconhecer que, afinal, tínhamos e temos algumas razões para temer a mesquinhez de certo gosto humano.

HISTÓRIAS SECRETAS



   Num artigo de imprensa anuncia-se a história secreta de António Variações. Jornais e revistas são fontes fecundas em histórias secretas, as quais vão parar a livros e vice-versa. O secretismo destes artigos tem certas particularidades, nomeadamente a paradoxal relação entre secreto e revelado. Desvelado o segredo, deixa de ser segredo. Logo, a história não é secreta. É apenas isco para curiosos, apelo ao voyeurismo, argumento de venda. 
   Neste momento, nos tops das livrarias, temos a história secreta de um farmacêutico de Auschwitz. Mas já antes tivemos, nos tops ou nos destaques, a história secreta da Gestapo, a história secreta de Twin Peaks, a história secreta dos Reis portugueses, a história secreta do atentado a Salazar, a história secreta de Snowden, a história secreta de Portugal, a história secreta de Pio XI, a história secreta de Lorde Byron, a história secreta dos irmãos Fidel e Raúl, a história secreta do Goldman Sachs, da Opus Dei, dos Beatles, do Capuchinho Vermelho, de Pedro e o Lobo, da humanidade… Esta última tem um título deveras sugestivo, acrescente-se: Testiculos Habet et Bene Pendentes (a razão de ser aqui).
   Que mais pretenderemos conhecer acerca da humanidade senão estas histórias secretas? A lista é infindável, embora incompleta. Falta-nos, obviamente, uma história secreta das histórias secretas. Fica a sugestão.

sábado, 9 de setembro de 2017

O RELÓGIO DA TORRE



Quando alguém nos é apresentado como sendo possuidor de determinados dons e qualidades, nós não podemos deixar de relacionar esses predicados com o reflexo  que eles terão na felicidade comum. E ocorre-nos se podemos realmente participar da boa sorte que essa pessoa sabe atrair com o uso dos seus talentos. Mas talento é uma coisa, e felicidade é outra. Felicidade é o círculo mágico dentro do qual nós desejamos encontrarmo-nos. O que nem sempre acontece. 
   Exemplo de uma pessoa feliz é o seguinte: um indivíduo acorda no meio da noite e vê o quarto ligeiramente iluminado. Não sabe se é madrugada ou se o candeeiro da rua projecta o clarão nos vidros da janela. Pergunta para si própria: «Que horas serão?» Nesse preciso momento, o relógio da torre bate duas, três ou seis badaladas. A pessoa fica imediatamente elucidada e dissipa-se o seu problema. Devo dizer que esta hipótese é muito rara.
   Outro caso é o de alguém que igualmente acorda fazendo ainda escuro, e pretende saber se a noite vai ou não adiantada. Então o relógio da torre bate uma badalada. A pessoa fica um bocado perplexa. Espera acordada meia hora; o relógio faz ouvir três, cinco ou seis badaladas. Aquela pessoa fica esclarecida. Esta é uma criatura medianamente feliz, pois não teve de esperar muito para que as suas dúvidas se dissipassem.
   No terceiro caso, acontece isto: a pessoa, que acordou sobressaltada e sem a noção do tempo, ouve uma badalada. Não sabe se é meia-noite e meia hora, se é uma hora, se é hora e meia da manhã. Espera, e ouve ainda uma badalada. Espera mais... e adormece. Eu ia dizer «e morre», mas não; adormece, e é tudo. Não chega a saber a quantas anda. Esta é uma pessoa sem sorte.
   Em qualquer dos casos, o que acontece nada tem que ver com as qualidades de cada um. Mas uma coisa é certa: todos nos encontramos no relógio da torre.

Agustina Bessa-Luís, in Caderno de Significados, Guimarães, Outubro de 2013, pp. 71-72.

JÁ É NOTÍCIA

Ainda pela mesma editora, vão sair Mike Tyson Para Principiantes, uma antologia poética de Rui Costa...

DEIXEM O CISNE EM PAZ


O Parque D. Carlos I, em Caldas da Rainha, é um símbolo da cidade. Escritores de boa safra dedicaram-lhe belas páginas, entre as quais as mais misteriosas saíram do lápis afiado de Luiz Pacheco. Nos tempos de Luiz Pacheco já havia um lago no Parque, com uma casa dos barcos a servir de apoio a passeios românticos. Não havia, porém, o famoso cisne preto. Ao cisne preto do lago têm sido imputados diversos crimes, entre os quais o mais frequente é o de atacar com inusitada violência aqueles que o incomodam. Invejo o cisne, sei de gente que faria o mesmo aos vizinhos. Não podemos acusá-lo é de irracionalidade ou de ser meramente instintivo, o cisne está cheio de razão. Um exemplo das suas razões fica bem ilustrado pela imagem ao alto. Algures entre o surf de Peniche e a onda gigante da Nazaré, houve quem por aqui se lembrasse de como interessante seria levar desportos radicais ao lago do Parque. Como que insatisfeitos com as condições oferecidas pela lagoa de Óbidos, os fãs de stand up paddle lembraram-se do lago no Parque para levarem a cabo uma demonstração. Onde dantes víamos barquinhos com namorados, tivemos agora a oportunidade de ver pranchas com jovens solitários (alguns de joelhos). Ora digam-me se o cisne preto não anda cheio de razão na sua revolta contra o mundo. 

VEM NA GAZETA


Contributo para o sensacional Portugal promovido no Malomil

quinta-feira, 7 de setembro de 2017

DA CULTURA (ALGUNS TÓPICOS)

Ensinam-nos na escola que a cultura é o conjunto de valores materiais e imateriais que caracterizam uma sociedade, mas nada nos dizem sobre crise de valores.
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As crises não são necessariamente negativas, podem ser momentos de transformação. Os valores não são estátuas de mármore, nem ADN nem impressões digitais. Resultam de um complexo encontro das necessidades quotidianas com a tradição, dos ideais com a prática, da ciência com as artes.
*
É um erro confundir cultura com produção artística ou com saber académico. Quando alguém diz “é uma pessoa muito culta” quer geralmente dizer que é uma pessoa com vastos conhecimentos, mas a cultura não resulta necessariamente de um conhecimento académico lato.
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Um homem solidário, tolerante, capaz de ouvir o outro e interessando pelo diferente é um homem culto. Um académico intolerante, arrivista, pedante ou assoberbado, é simplesmente burgesso.
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O intelectual não é necessariamente culto. O artesão não é necessariamente estúpido.
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Gramsci dizia que a cultura é disciplina do eu interior, domínio da personalidade. Como relacionar esta noção de cultura com toda uma sociedade?
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Que quer alguém dizer quando fala da cultura árabe? Ou da cultura americana? Ou da cultura chinesa? Que quer alguém dizer quando se refere à cultura portuguesa?
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Talvez se refira a meros estereótipos. Acontece que um dos princípios fundamentais do homem culto é combater os estereótipos. Enquanto preconceito, todo o estereótipo ou generalização é inimigo da cultura.
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Haverá uma cultura portuguesa?
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Encontramos a resposta a uma questão destas num complexo cruzamento de saberes que não está ao alcance de cada um. A educação talvez ajude a passar a mensagem.
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Agustina Bessa-Luís afirma, no Caderno de Significados, que «A cultura não se elabora, vive de toda uma filtragem moral e sentimental da sociedade que a produz. Não é obra de empresários nem de mecenas». Referia-se aos espectáculos. Mas acrescenta, e isto é o mais importante, «a cultura é feita por obras do pensamento». «A cultura não inspira deveres numerosos, mas um só dever: a consciência duma pessoal moral».
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A cultura tem pois que ver com a moral, logo com valores, logo com leis, logo com práticas, logo com a vida.
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A cultura provém da vida, enriquece-a e conserva-a. A cultura é, sobretudo, um esforço de conservação da vida.
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É por isso que consideramos obras de cultura as obras imorredoiras, as que perduram no tempo contra a efemeridade desenfreada do consumismo, as que os turistas querem visitar. Uma obra de cultura pode não ser eterna, porque de eterno conhecemos pouco mais do que o esquecimento. Mas perdura para lá do imaginável.
*
É absolutamente catastrófico que se invista tão pouco na cultura. Os governos perdem mais tempo e gastam mais dinheiro com a indústria da morte do que com a conservação da vida. Ora secretaria de estado, ora ministério, a cultura esvai-se nestes tempos supérfluos em pouco mais do que entretenimento.
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Antes e hoje, pão e circo.
*
Cada vez mais, constatamos o quão fundamental é investir na cultura, na propagação de valores que fundamentem e sustentem a vida, uma cultura de progresso moral, aberta à diferença, mas, sobretudo, empenhada no pensamento contra o imediatismo, esforçada na reflexão contra a vertigem noticiosa e opinativa, uma cultura que resgate para as pessoas o tempo, o ócio, a pausa, a capacidade até de parar, tão ameaçada que se encontra pela aceleração dos ritmos de vida, pelo ruído.
*
Cultura do espírito crítico, cultura do "espera lá, mas isso é mesmo assim?", cultura da dúvida, do desassossego e da inquietação.
*
Já sabemos quão nociva vai sendo esta incapacidade de parar para reflectir, tomada de assalto que foram as pessoas pela urgência tecnocrática. Não podemos prever, mas imaginamos, como será daqui a uns anos.
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Autómatos e insensíveis, os homens serão cada vez menos homens. Serão cada vez mais bestas formatadas. Ser besta é ser inculto, é não ter cultura.
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Trotski dizia que «A noção de cultura não deve ser trocada como moeda de uso individual e não se podem definir os progressos da cultura de uma classe segundo os passaportes proletários destes ou daqueles inventores ou poetas. A cultura é a soma orgânica de conhecimento e de experiência que caracteriza toda a sociedade ou, pelo menos, a sua classe dirigente. Abrange e penetra todos os domínios da criação humana e unifica-os num sistema. As realizações individuais erguem-se acima desse nível e elevam-no gradualmente».
*
Espantoso o sentido que estas palavras continuam a fazer ainda hoje. Mas o que pensar e sentir quando constatamos a quase total ausência de cultura em tanta da chamada classe dirigente?
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Pão e circo, antes e hoje.
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Insensíveis aos problemas da cultura, os dirigentes jogam no tabuleiro da popularidade. Buscam adesão popular muito mais avidamente do que se preocupam com o incremento e a preservação de valores. Arrastados pela hegemonia do lúdico, respondem afirmativamente ao “império do efémero” acenando com o êxtase colectivo da festa.
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Um exemplo catastrófico desta realidade é o estado degradado do nosso vasto património imobiliário, ou a incúria reiterada com o património geográfico. Ruína e abandono resultam no filme de terror a que mais uma vez assistimos este ano com os diversos incêndios disseminados por todo o país.
*

Ainda há quem pense que nada disto tem que ver com cultura, que é tudo fruto do crime e da doença e da especulação. Mas onde se desenvolvem melhor todos esses males senão em terrenos onde falta cultura?

SEM COMENTÁRIOS


quarta-feira, 6 de setembro de 2017

BANDA SONORA ESSENCIAL #17


   Quando Chico Buarque é acusado de machismo, o que aconteceu recentemente por causa de uma canção intitulada Tua Cantiga, questionamo-nos sobre os níveis de sanidade mental neste mundo em que vivemos. É exactamente o mesmo mundo em que hordas enfurecidas se indignam com blocos de actividades para meninos e para meninas, o que deve levar a repensar todo o comércio orientado para bebés azuis e bebés cor-de-rosa. Talvez um dia venhamos a ter que optar por cores neutras, em nome da inclusão e contra a discriminação de género. Isto apesar dos múltiplos exemplos de discriminação positiva que vão dando sinais optimistas na evolução de uma sociedade que se quer civilizada, como sejam a problemática introdução do sistema de prioridades nos espaços comerciais ou o respeito pelos lugares de estacionamento para deficientes. 
   Mas ainda que as diferenças entre mulheres e homens sejam evidentes, o que se reflecte, desde logo, no tamanho das carteiras, as deles à medida do bolso das calças, as delas à medida de misteriosas malas inundadas de utensílios por certo indispensáveis, estamos muito aquém de o admitir serena e civilizadamente. Confunde-se inclusão com padronização, o que é mau, e discriminação com segregação, o que é péssimo. Não há inclusão sem discriminação. A dita positiva. Que da negativa já basta o Facebook a censurar escultura clássica por causa de nus. 
   Artistas acusados de machismo não é de agora. Há muitas décadas, nos idos de 1972, um escritor de canções canadiano foi vítima de impropérios congéneres. Harvest foi o quarto álbum a solo de Neil Young, depois de aventuras com os Buffalo Springfield na década de 1960 e de uma pérola intitulada Déjà Vu (1970) com os camaradas Crosby, Stills & Nash. Lá chegaremos. Apesar de ter sido um imenso sucesso de vendas, Harvest dividiu a crítica. A beleza das melodias não convenceu alguns ouvintes mais duros, empenhados e censurar a melancolia e a indolência das letras, assim como a opção de Young por um estilo country apoiado em guitarras acústicas, piano, banjo, steel guitars
   Sucede que a melancolia tinha razão de ser: o estado de saúde do compositor. Podemos estar hoje agradecidos às hérnias discais que atormentaram Neil Young. Graças a elas, o homem ofereceu à posteridade duas mãos cheias de canções geniais. Uma, por sorte das mais belas, com um título que incendiaria hoje as redes sociais: A Man Needs a Maid. À época, como lembra Johnny Rogan na biografia sobre Neil Young, este foi alvo de ataques sérios que o acusavam de misoginia e até de chauvinismo. Vá-se lá perceber. Na verdade, a canção é sobre a insegurança de um artista, uma canção de sentimentos simples que «traçam uma linha muito ténue entre a consciência de si próprio e a auto-indulgência». Ou seja, é uma canção sobre um tipo que está todo lixado das costas e não quer meter-se em trabalhos com uma namorada nova. Prefere contratar uma empregada e viver descansadamente na sua solidão. Chamem-lhe machista.