segunda-feira, 17 de julho de 2017

NO MELHOR PANO

Este post do Ricardo António Alves não tem sentido algum. E é precisamente por isso que merece ser alvo de uma crítica "inquisitória", que é uma maneira de dizer censura sem censurar. Quando alguém crítica veementemente as afirmações de outrem está a fazer uso de um bem precioso, a liberdade de expressão sem a qual nenhuma crítica seria possível. Ora, assim como está mal privar alguém de afirmar o seu pensamento, exercitando a sua liberdade de expressão, também estaria mal privarmo-nos de criticar esse pensamento discordando dele. Tão grave quanto a censura é a autocensura, sobretudo em democracia. Esta obriga-nos a um sentido crítico amplo e aberto, disposto à contradição e à mais feroz das antíteses. Sempre em busca de uma síntese, creiamos mais ou menos na sua possibilidade. Não podemos é calar-nos perante a ignomínia e a estupidez. António Gentil Martins foi ignominioso e estúpido ao produzir as afirmações que produziu sobre homossexualidade e as chamadas barrigas de aluguer. Por que não dizê-lo? Por ter livrado da morte milhares de crianças? Por ser um conceituado cirurgião? Isso deverá isentá-lo da crítica feroz quando proferir ordinarices como as que proferiu ao Expresso? Não creio, mais ainda por terem as suas afirmações especial relevância numa sociedade conservadora e tacanha como a nossa. Os pergaminhos católicos do Doutor Gentil fazem estragos. Não é apenas uma expressão bastante infeliz aquilo que vem incitando a “nova inquisição”, a qual, reconheça-se, tem apesar de tudo fogueiras mais confortáveis e anódinas do que as medievais. Daqui a uns dias ninguém se lembrará desta entrevista, muito menos de quem foi Gentil Martins. Mas por estes dias não podemos senão declarar o maior repúdio possível para com mais uma exibição pública de homofobia. 

3 comentários:

Ricardo António Alves disse...

Meu caro,

aceito a crítica e agradeço o imerecido aquilatar do pano, embora rejeite a implícita nódoa, a não ser, eventualmente mo modo desabrido com que escrevo de supetão. Quanto aos meus preconceitos, assumo-os, pacificamente.

Tudo é criticável, e eu próprio critico AGM. Este tem, contudo, uma qualidade; dá a cara, com preconceitos e tudo. Muitos não o fazem, por medo, comodismo ou, pior ainda, cálculo.

Quanto ao país não se lembrar de quem foi o AGM, diz muito do próprio país.

Um abraço

hmbf disse...

Pois diz, mas não é do país. É do estado do mundo. Ainda mais uma razão para lhe criticarmos veementemente as afirmações homofóbicas, como ao outro palerma candidato em Loures devemos criticar as atoardas racistas, e assim sucessivamente.

Anónimo disse...

Estou muito mais do lado do Ricardo António Alves. Mas infelizmente este não gosta de comentários anónimos o que é uma grave asneira. Ora eu sou um defensor do direito à asneira. Critico a asneira mas não condeno (salvo em caso muito, muito excepcionais). Mas não acredito que F. Assis Pacheco se auto-censuraria. Mas estaria de facto frito se hoje utilizasse termos como fufa e paneleirice. Acho que ele teria coragem para enfrentar as condenações dos politicamente correctos. É asneira o que acabo de escrever? Se alguém , em vez de me criticar, preferir condenar-me que se lixe.
J. M. Santos